Na luta contra o câncer - 04/05/2015 09:36 (atualizado em 01/06/2015 20:37)

“Eu chego ao médico com tosse, e de repente eu recebo uma sentença de morte”, Elisa Fritzen

A jovem paranaense Elisa Cristina Fritzen enfrenta pela segunda vez o câncer. Desta vez, segundo os médicos, sem esperança de cura, mas apesar disso, ela não perdeu a vontade de viver e agradecer por cada dia que passa
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Ilustração 

A jovem paranaense Elisa Cristina Fritzen, de 30 anos, tem o que toda jovem de sua idade normalmente busca: planos, ideais, vaidade, sonhos, mas o que mais se destaca nela é a coragem de lutar pela própria vida. Pela segunda vez ela descobriu que sua luta continua e enfrenta o câncer novamente. Desta vez segue um tratamento paliativo, que alivia os sintomas e a dor. Pela primeira vez, aos 26 anos, enfrentou a doença em 2012, quando descobriu estar com câncer no cólon do útero, o que destruiu seu sonho de um dia ter filhos. E agora, em 2015, se deparou novamente com a doença, câncer no pulmão, mas desta vez suas esperanças de sobreviver a este mal diminuíram com o anúncio do médico ao passar o diagnóstico. 

Elisa Fritzen 

Mas apesar do que tem a enfrentar, Elisa não perdeu a vontade de viver e sorrir para a vida. Apesar da notícia ruim que precisou ouvir em uma das consultas com seu médico, que sempre a acompanhou, Elisa busca viver a beleza de cada dia. E o que era apenas um sintoma simples, uma tosse, era um sinal de que sua saúde não estava bem e uma nova batalha estava chegando. “Eu chego ao médico com tosse, e de repente eu recebo uma sentença de morte, foi assim que chegou ao ponto. Foi bem estranho, minha mãe sempre ia comigo e naquele dia resolvi que ela não ia junto na consulta”, lembra Elisa. 

Os sintomas começaram a surgir com muita tosse. Elisa, que estava morando em São Miguel do Oeste, onde trabalhava em uma loja, pensava que seus sintomas se tratavam de alergia a um gatinho que tinha adotado. Porém, por precaução, doou o gato para outra pessoa esperando melhorar da tosse, e mesmo assim não passava. Vieram os cansaços físicos e emagrecimento aliado à tosse. Como fazia avaliações a cada três meses em decorrência do câncer que teve em 2012, Elisa adiantou sua avaliação com médico que acompanhou seu tratamento. Em janeiro deste ano Elisa foi para sua consulta em Francisco Beltrão, no Hospital do Câncer, e naquela semana ficou por cinco dias no hospital fazendo exames para verificar qual a causa da tosse intermitente.  

O resultado e a notícia 

Quando chegaram os resultados dos exames, Elisa precisou encarar mais uma vez uma notícia nada boa, a volta do câncer. “A expressão dele não era boa. O médico então me olhou e disse: Elisa, você tem um tumor no pulmão, é maligno pelo tamanho, sua situação é grave e eu, como profissional de anos, tenho certeza que você tem metástases nos órgãos também. Como eu sempre fui de pesquisar e ler, então eu tinha entendido que estava enraizado”, revela. A jovem disse que perguntou o que poderia fazer, e o médico indicou que os próximos passos seriam a biópsia e novos exames para confirmação do quadro clínico. “Cheguei em casa e chorei três dias. Eu tinha noção de que o câncer ia voltar, mas o médico esperava que isso iria acontecer em dez anos e foi surpresa até pra ele”, menciona Elisa. 

A jovem conta que os exames comprovaram que o câncer agora se trata de uma metástase em decorrência do câncer que enfrentou em 2012. No último exame que Elisa fez este ano veio a resposta definitiva de como estava o estado do câncer no pulmão e o rumo de seu destino dado pelo médico. “Ele disse: ‘infelizmente não é primário, é uma metástase, então é uma raiz do teu câncer antigo. Está em grau 2, é maligno, brônquios e pulmão, mas não tem como tirar porque ele está perto do coração, entre as costelas, e é um tipo que se mexer pode espalhar mais rápido. Então nós vamos tratar’. Então ele me disse: ‘Elisa, hoje é o dia em que vou fazer a pior parte da medicina, olhar nos olhos de uma jovem e dizer que ela vai morrer’. Quando ele falou aquilo, eu pedi: ‘quanto?’. Ele disse: ‘Elisa, eu te seguro por um ano’. Eu perguntei: ‘vai doer?’. Ele disse: ‘não’”, diz, emocionada, ao lembrar. 

O médico disse que iria ajudar Elisa, que em meio àquilo tudo, apenas pediu se poderia participar da formatura de sua amiga, que seria no dia 18 de abril. Porém o médico pediu que começasse imediatamente as sessões de quimioterapia, pois não haveria tempo para esperar. “Ele me disse: ‘vou te dar um conselho como amigo, você não tem tempo para esperar’. Eu só perguntei se meu cabelo iria cair até a formatura, e ele disse que não. Apenas pediu para ir pra casa, não pensar em besteira e voltar na próxima semana para iniciar as quimioterapias”, conta. O médico não deixou Elisa sair de seu consultório sem conversar sobre toda sua trajetória que já enfrentou em 2012 e mais uma vez dar uma triste notícia. As lágrimas foram inevitáveis, mas o médico a comparou com um anjo, que apesar de todas as dificuldades, cativa as pessoas, e por onde passa deixa seu sorriso e seu consolo.

“Eu fiz foto da minha quimioterapia, eu pensei: ‘preciso achar a palavra, aí eu vou acreditar que a coisa tá feia’. Eu olhei, tratamento paliativo, então olhei de todos os pacientes ao meu lado para ver se tinha mais alguém, ninguém mais. Eu sei que todos vão morrer um dia, não é que porque ele falou um ano que vou durar um ano, pode ser mais, como pode ser menos. Todo mundo fala que tenho que viver como se fosse o último dia, eu digo não, como se fosse o primeiro”, argumenta ela, com brilho nos olhos. 

Naquele dia, quando Elisa chegou em casa, não quis contar a verdade para sua mãe, mas seu pai, percebendo que algo estava escondido, a pressionou, quando então ela revelou a ele. “Eu olhei para meu pai e disse: ‘o médico disse que eu vou morrer, eu fiquei assustada, mas estou conformada e não tenho vontade de fazer nada. Sei que a quimio vai me ajudar a sentir menos dor’”, conta. Elisa revela que sofreu e sentiu muita dor ao receber a notícia e que por muitos dias pensou em como iria enfrentar aquilo tudo. 

Apesar da batalha que lhe foi dada, seu sorriso não se apagou, e mesmo sabendo que seu sonho de casar e ter filhos, como toda mulher, não existe mais, realizou seu sonho de ir na formatura de sua amiga. Os sonhos e desejos de Elisa, a partir de sua situação, são outros. Elisa realizou seu grande desejo que era de ir na formatura de sua amiga, mesmo após enfrentar uma semana de sessão de quimioterapia e estar sentimento muitas dores. Ela, que não frequentou nenhum curso de graduação, a não ser o curso de estética, que iniciou em São Miguel do Oeste, então procurou curtir a formatura de sua amiga como se a noite fosse sua, como se a festa fosse sua. “Eu curti meu cabelo naquele dia, todo liso, para ver como ele realmente estava, até porque neste sábado eu vou raspar, já que no dia seguinte da formatura ele começou a cair”, conta. 

Os dias seguem 
A rotina de quem enfrenta uma batalha contra o câncer 

Elisa não deixou de sorrir e vive seus dias como se fosse o primeiro. Hoje ela se despede dos cabelos que aos poucos começaram a cair, mas o fato não a desanima e já faz planos em usar perucas e lenços para realçar sua beleza 

A partir de então Elisa retomou a rotina de tratamento contra o câncer no Hospital do Câncer em Francisco Beltrão. Vieram as dores e a perda de peso. Hoje ela pesa 38 quilos em decorrência do tratamento, que é agressivo, mas não deixou de fazer suas atividades e sair com seus amigos, tudo com cautela, pois não pode fazer esforço físico. “Eu sempre digo pra mãe deixar eu fazer e caminhar enquanto estou bem e viva, depois, quando estiver acamada, ela pode fazer por mim”, fala. Sua rotina hoje não envolve mais seu trabalho, e apesar de não poder fazer esforço físico, ela insiste em ajudar em atividades em casa, pois é o que a faz sentir viva. 

Em sua página pessoal no Facebook, Elisa compartilha com seus amigos sua história de luta por meio de fotos e vídeos e, segundo ela, isso a ajuda a enfrentar melhor o dia a dia e ao mesmo tempo ajuda pessoas que a procuram. Por outro lado, ela reconhece que muitos comentam que ela usa a doença para conseguir as coisas, mas ela não dá atenção para este fato e mesmo precisando de ajuda, é ela quem ajuda e dá conselho para muitos que a procuram. “Eu só peço que rezem, que orem para que eu não sinta dor, é só isso que eu quero. Eu posto para dizer que eu estou bem, apesar de tudo”, revela. 

Para realçar a beleza da mulher com seus longos cabelos loiros, Elisa agendou um book fotográfico antes de raspar a cabeça. Mas hoje ela se despede dos cabelos que já começaram a cair, e para enfrentar os dias sem seus cabelos, Elisa já faz planos, já comprou brincos grandes e turbantes, e afirma que vai manter a maquiagem que sempre faz todos os dias. “Ah, dói o ego quando cai o cabelo. Ganhei uma peruca de uma enfermeira e eu vou tentar fazer uso”, diz. 

Em tratamento paliativo, Elisa fala que enquanto se sentir bem pretende, sempre que possível, visitar seus amigos e participar de festas, somente ficará em casa, quando não aguentar mais as consequências da doença. Ela diz que hoje sabe o que é viver e o que é felicidade. Para ela, importante na vida são a família e os amigos. “Sempre digo, aprendam a viver a vida agora, aproveitem a saúde que têm, não esperem chegar onde estou. De repente não vai ter a força e a vontade que tenho. Cada dia é para mim mais um dia, não vivo como se o momento fosse o último, mas como se fosse o primeiro. No primeiro vamos com cautela e com encanto. Eu acredito seriamente que anjos existam e eu acho que vou morrer, e não que vou ser um anjo, mas que vou conseguir cuidar das pessoas e olhar por elas. Anjos são pessoas que levam algo bom, e eu só penso que não quero morrer com dor.  

Primeira vitória 
Em 2012 Elisa estava noiva, e como todo casal, planejava um dia ter filhos. Porém o sonho foi interrompido pelo câncer, e Elisa precisou retirar o útero, pois estava com câncer no cólon do útero. Ela conta que na época não lembra de ter percebido sintomas, mas um dia amanheceu e se assustou ao perceber que estava com a cama com muito sangue, em decorrência de uma hemorragia, que aconteceu sem que percebesse. Em seguida, procurou um médico, que após exames e procedimentos, deu a notícia: estava com câncer e precisava retirar o útero, além de sessões de quimioterapia. Naquele período, Elisa não perdeu apenas o sonho de ter filhos, mas perdeu seu primeiro namorado, que acabou deixando-a. 

“Foi um ano e pouco de tratamento, foram 20 sessões de quimioterapia, 28 radioterapias e braquiterapia”, conta. Elisa, quando terminou o tratamento, não podia encarar o espelho, pois tinha perdido parte do cabelo, que estava mais curto e não gostava de fotografar. “Eu usei algumas peruquinhas, eu odiava foto, mas hoje é o contrário. Eu tiro foto para que as pessoas vejam que eu estou bem, pelas fotos eu tento passar o que estou sentindo. Eu não quero que as pessoas tenham dó”, declara.  

Quando terminou o tratamento em 2012, o médico apenas pediu que ela procurasse ser feliz. “Ele disse que estava feliz porque pensava que eu não conseguiria superar e pediu para eu ser feliz e buscar ser simplesmente a Elisa. Pediu o que eu gostava de fazer, então disse que nunca viajava e nunca fui em balada, então ele disse, agora você vai fazer tudo isso”, lembra. Ela esperou apenas 15 dias após o tratamento e foi para o Mato Grosso, em um acampamento religioso, e aquele foi o estopim, e viajou muito, conheceu muita gente.
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Fonte: Débora Ceccon/ O Líder
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