Reportagem especial - 31/10/2015 09:31 (atualizado em 31/10/2015 09:57)

Tragédia na BR-282: oito anos depois, sentimento ainda é de dor e revolta

O Jornal O Líder faz uma retrospectiva de uma das tragédias mais comoventes da história de Santa Catarina e recorda os momentos de tensão de quem viu de perto e ainda busca uma forma de conviver com a saudade de alguém que partiu
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Cenário de destruição após o segundo acidente na BR-282 na noite de 9 de outubro de 2007 - Foto: Reprodução

Santa Catarina vive em cada outubro, um mês de luto e ausência. Para cada uma das famílias dos 27 mortos na tragédia do dia 9 de outubro de 2007, na BR-282 em Descanso, o mês marca um vazio. Neste ano, a tragédia entre um ônibus e três carretas completou oito anos. Mesmo com o passar do tempo, as lembranças de uma das maiores tragédias da história de Santa Catarina ainda estão presentes na memória do Extremo-oeste.

Em outubro de 2007, 27 pessoas morreram e outras 90 ficaram feridas durante uma sequência de dois acidentes na BR-282. A tragédia ocorreu nas proximidades da ponte sobre o Rio das Antas. Por volta das 19h15, uma colisão frontal entre um ônibus da WR Tur, de São José do Cedro e uma carreta de Frederico Westphalen (RS) provocou a morte dos dois condutores, da esposa e dois filhos de um deles, e de seis dos 39 pequenos agricultores que viajavam no coletivo.

Cenário de destruição após o segundo acidente na BR-282 na noite de 9 de outubro de 2007 - Foto: Reprodução

Duas horas depois, enquanto bombeiros, policiais militares e populares prestavam socorro às vítimas, uma carreta carregada de açúcar, perdeu o freio e acabou atingindo os veículos parados na rodovia. O caminhão desgovernado desceu a serra em alta velocidade e tornou a tragédia ainda maior. Caminhões dos bombeiros, ambulâncias, carros de polícias, profissionais que atuavam no resgate, jornalistas e curiosos foram atropelados. 16 pessoas morreram vítimas da segunda colisão. O saldo total foi de 27 mortos. As vítimas residiam em cidades do Extremo-Oeste catarinense e nas cidades gaúchas de Frederico Westphalen e Encantado.

Nesta semana, o motorista Rosinei Ferrari que conduzia o caminhão responsável pela segunda colisão foi a júri popular no Fórum da cidade de Chapecó. De grande comoção pública, o julgamento de Ferrari reuniu a atenção da imprensa e população regional. Oito anos após a tragédia, o Jornal O Líder faz uma retrospectiva do caso e recorda os momentos de tensão de quem viu a tragédia de perto e de quem ainda busca conviver com a ausência de alguém que partiu.


O REGISTRO DO TERROR

“Em tanto tempo, revi raras vezes essas fotos”, revela fotógrafo

 Fotógrafo de São Miguel do Oeste, Jorge Hajdasz, capturou em outubro de 2007 o momento exato da aproximação do caminhão, antes do segundo acidente. Fotos estamparam importantes portais de notícias de todo o Brasil

Registro do momento em que o caminhão guiado por Rosinei Ferrari se aproxima do local do primeiro acidente - Foto: Jorge Hajdasz 

Não faltam imagens para ilustrar o cenário de horror após a tragédia na BR-282, há oito anos. Mas uma em questão chama atenção em meio às demais. O registro estático do momento que antecedeu a segunda colisão foi clicado pelo fotógrafo Jorge Hajdasz, de São Miguel do Oeste. A foto icônica revela que as pessoas tentaram correr ao perceberem a aproximação do caminhão desgovernado que causou a segunda colisão.

O registro correu o Brasil em portais de notícias famosos e jornais impressos de renome nacional. Hajdasz foi um sobrenome comentado e o depoimento do fotógrafo também tomou páginas e mais páginas. Oito anos depois, as sequelas da tragédia não são físicas, mas emocionais para o fotógrafo que ainda se emociona ao recordar o que viu naquele 9 de outubro de 2007.

Jorge tinha 29 anos quando registrou o momento exato da aproximação do caminhão guiado por Rosinei Ferrari - Foto: Keli Fernandes/ O Líder

Na última semana, a equipe de reportagem do Jornal O Líder visitou o fotógrafo Jorge Hajdasz no estúdio fotográfico que ele administra junto da ex-mulher Mariza Klagenberg, em São Miguel do Oeste. Mariza era formada bombeira comunitária na época do acidente e acabou sabendo do ocorrido na academia por uma amiga. Ela não teve dúvidas, contatou o marido para que fossem juntos até o trecho da BR-282, auxiliar na tragédia. “É uma data bem delicada, quem passou sabe. Eu era bombeira voluntária afastada, mas sempre auxiliávamos quando nos chamavam. Soube do acidente na academia por uma amiga minha que é enfermeira, e acabei chamando o Jorge para ajudar. Ele prontamente aceitou, pegou a máquina fotográfica e foi de chinelo mesmo, como estava em casa e eu fui como estava na academia”, lembra.

Levar o equipamento fotográfico foi um ato instintivo do fotógrafo acostumado com a profissão. Ao chegarem no local do acidente, Jorge e Mariza viram um grande aglomerado de pessoas e carros parados no acostamento da rodovia. O casal, deixou o carro no mesmo local e percorreu o trecho até o exato local do acidente, à pé. Lá, muita tristeza e pavor. “Escutamos muito barulho de sirenes dos bombeiros na cidade e percebemos que devia ser algo grave, então fomos ajudar. Levei minha câmera fotográfica instintivamente. Fomos até um trecho da rodovia, deixamos o carro e descemos o resto do trecho a pé. Havia muito barulho de equipamentos desencarceradores dos bombeiros, que tentavam tirar as vítimas do primeiro acidente das ferragens. Subi em um caminhão que estava parado no sentido Maravilha/São Miguel do Oeste para ficar com uma visão panorâmica e conseguir fotografar tudo”, recorda Jorge.

Foi nesse momento que um forte zunido tomou o local iluminado apenas pelos faróis dos veículos parados. Um barulho intenso de buzina sinalizava a proximidade do caminhão desgovernado, quando, em mais um ato instintivo, Jorge registrou o momento que ficou marcado na história e também na vida dele. “Não sei como fiz aquela foto. Foi no instinto de clicar. Eu estava na linha de foco do primeiro acidente. Na hora que escutei a buzina do caminhão, virei e cliquei, em segundos eu já estava no chão. Tinha muita gente correndo, virou aquele terror. Não sei como saímos vivos daquilo. No momento tentei ficar frio, mas meu emocional está marcado até hoje”, declara.

Após a segunda colisão, o cenário que já era de tensão ficou ainda mais triste. Bombeiros, policiais militares, jornalistas e populares foram arrastados pelo caminhão. O local, pouco iluminado, ficou então escuro e tudo que se podia ver e ouvir era uma fumaça e os pedidos de socorro dos sobreviventes. “Quando o caminhão estava chegando, o motorista buzinava muito. Nós ficamos estagnados, não deu tempo de nada. Senti uma força me segurar, como se fosse um anjo me protegendo. Então ficou tudo escuro, havia muita fumaça. Escutamos as pessoas pedindo socorro e fomos ajudar os feridos. Foi triste ver amigos bombeiros que me formaram e haviam perdido a vida”, conta Mariza.

Enquanto a bombeira comunitária Marisa auxiliava os colegas no resgate das vítimas da tragédia, Jorge resolveu voltar para casa para avisar aos familiares que eles estavam bem, já que no local dos acidentes não havia sinal de celular. Com a colisão, ambos não se feriram. Foi somente em casa, um tempo após os acidentes, que Jorge pegou a câmera fotográfica para rever os cliques. Entre tantos registros, aquele que ganharia as páginas dos jornais pelos próximos dias.

“Pensei em voltar para avisar o pessoal que estávamos bem. Depois de muito tempo depois fui ver as fotos e então caiu a ficha que eu tinha a foto do momento. Não fiz com intenção de me vangloriar e sim porque como todo fotógrafo, levei a câmera instintivamente. Não sei como fiz aquela foto. Nos próximos dias, sites de notícias me contataram, meu telefone tocava de madrugada. O acidente mexeu muito comigo, minha cabeça deu um nó. Ao mesmo tempo que minhas fotos eram divulgadas, eu me isolava, quase não saía de casa”, recorda o fotógrafo.

Mesmo com a simbologia das imagens que clicara naquele dia, o fotógrafo procura não lembrar muito de suas existências. Para ele, o registro do exato momento de uma das maiores tragédias de Santa Catarina tem uma série de significados, dentre elas, a de renascimento. “Para mim significa muito, porque voltei, sobrevivi. Mas isso ainda me toca muito porque muitas pessoas morreram, é difícil falar desse assunto. Em tanto tempo, revi raras vezes essas fotos”, finaliza. 


TOMBADO NO CUMPRIMENTO DO DEVER

“Me perguntei como contaria pra nossa filha que o pai dela nunca mais iria voltar”

 Anos após a tragédia, esposa de bombeiro morto em segunda colisão diz que sentimento ainda é de revolta. O bombeiro Carlos Françozi estava de folga e foi chamado no dia do acidente para auxiliar no resgate às vítimas

Roselaine ao lado do marido Carlos e da filha do casal ainda bebê em um dos registros guardados com carinho em meio às recordações da família - Foto: Arquivo Pessoal

Carlos Françozi tinha 34 anos e era bombeiro militar em São Miguel do Oeste há 11. No dia 9 de outubro de 2007, estava de folga, mas foi chamado para ajudar no primeiro acidente na BR-282, em Descanso, que já havia deixado muitas vítimas. Casado e com uma filhinha de três anos de idade, Françozi deixou a família para cumprir o dever de salvar vidas. A esposa Roselaine recorda que após a saída do marido, começou a acompanhar as notícias sobre o acidente em uma emissora de rádio da cidade. Momentos mais tarde, a mesma rádio anunciou a ocorrência de um segundo acidente provocado por um caminhão desgovernado que não havia respeitado a sinalização.

A esposa entrou em choque, mas procurou se informar sobre o estado de saúde do marido que auxiliava no resgate no momento do segundo acidente. A notícia não tardou a chegar, o bombeiro Carlos Françozi era uma das 16 vítimas do segundo acidente. “No dia do acidente meu esposo estava de folga e foi chamado por um colega que foi até nossa casa. Acompanhei desde o primeiro acidente por um rádio que tínhamos em casa quando o repórter falou que tinha acontecido o segundo acidente e tinha vitimado bombeiros. Fiquei desesperada, busquei notícias em todos os meios. Quando me falaram que ele era uma das vítimas fatais o chão abriu sobre meus pés”, recorda a esposa Roselaine.

Bombeiro Carlos Françozi, um dos heróis mortos durante cumprimento do seu dever - Foto Arquivo Pessoal

Naquele momento, muitas coisas passaram pela cabeça da mãe que em meio há tanto sofrimento não sabia como contar para a pequena filha do casal, a triste notícia sobre a morte do pai. “Ficava me perguntando como uma pessoa que saiu de casa para salvar vidas tenha perdido a sua de uma maneira tão cruel. Me perguntei como  contaria pra nossa filha que o pai dela nunca mais iria voltar”, lembra.

Inconformada com o vazio deixado pela ausência do marido Carlos, o sentimento não podia ser outro para Roselaine: a saudade que divide espaço constante com a revolta de ver os anos passarem sem que fosse feita justiça. Para a esposa, o julgamento do caso ocorreu tarde demais. “O sentimento é de revolta porque apenas 8 anos após o acidente esta sendo realizado o julgamento. Enquanto isso Rosinei continuou sua vida normalmente e nós tentando superar cada dia. Sei que a culpa não foi somente dele mas também da transportadora. Rosinei tinha outras opções e à partir do momento que ele decidiu seguir em frente com um caminhão em más condições e não parou na fila, assumiu totalmente a responsabilidade, ele fez sua escolha”, declara.

Oito anos se passaram desde que o Corpo de Bombeiros de Santa Catarina perdeu cinco de seus heróis. No dia 9 de outubro de 2007, os profissionais das cidades de Guaraciaba, São Miguel do Oeste, Itapiranga, Maravilha, Modelo, Cunha Porã e Dionísio Cerqueira se reuniram em prol de um único ideal: salvar vidas. Muitos deles, como Françozi, estavam em seu horário de folga quando decidiram auxiliar as equipes no salvamento das vítimas. “Espero justiça que Rosinei seja condenado. Ele arrancou a coisa mais preciosa de minha vida e da vida da minha filha: nossa família. Sei que isso não vai trazer o Carlos de volta e nem vai apagar a dor que sentimos, mas nos confortará saber que a justiça foi feita”, conclui a esposa.

O DEPOIMENTO DOS SOBREVIVENTES

Em 2013, a reportagem do Jornal O Líder conversou com os bombeiros de São Miguel do Oeste que auxiliaram na tragédia de 2007. Por trás da farda do profissional e herói responsável pelo salvamento muitas vidas, colegas emocionados em meio ao vazio do batalhão.

Fábio André Sturm, Corpo de Bombeiros de São Miguel do Oeste – Foi para o local do acidente logo após a primeira colisão - Foto: Camila Pompeo/ Arquivo O Líder

“Quando ocorreu o segundo acidente, o ambiente já estava praticamente controlado. Estávamos tentando tirar as vítimas em óbito da carreta, e nosso atendimento iria terminar ali. Já tínhamos passado uma fita para afastar o público. Comecei a subir, passei pelo guincho e encontrei um colega que depois faleceu, conversei um instante com ele e continuei subindo. Entrei em outro grupo e quando virei para falar com eles, ouvi o barulho e vi a carreta vindo para cima de nós. Na primeira noite que eu passei em casa, quando passaram os efeitos dos calmantes, começou um filme na minha cabeça. Na primeira noite que voltei para o quartel é que senti o clima de como estava o ambiente aqui dentro. Fica a lembrança. No início, uma lembrança ruim. Depois, você começa a lembrar dos momentos bons com os colegas.”






Jéferson Machado, Corpo de Bombeiros de São Miguel do Oeste - Chegou no local assim que a carreta carregada de açúcar causou o segundo acidente - Foto: Camila Pompeo/ Arquivo O Líder

“Estava tudo escuro, tinha uma fumaça. Vi o caminhão do bombeiro virado na pista. Foi a primeira cena que vi. Estacionamos a viatura, saímos de lá praticamente sem luz. Não encontrávamos ninguém, até que encontramos um bombeiro sujo de óleo e muito machucado. Aquilo me assustou um pouco porque eu não sabia o que estava acontecendo. A dificuldade de atender os nossos colegas naquela situação foi um agravante. Foi difícil trabalhar e ver as botinas dos bombeiros espalhadas pelo local. Esses colegas eram muito alegres. A maior dor é no momento que você vai vasculhar as pedras e acha aquela camisa vermelha, rasgada, daquele pessoal que tombou no cumprimento do dever deles”. 








CONDENADO

“Também sofro muito por tudo o que aconteceu”

Essa foi uma das frases proferidas por Rosinei Ferrari durante seu depoimento no júri popular no qual foi condenado à 21 anos de prisão. Durante depoimento, o réu pediu perdão às famílias das vítimas

Colaboração Jornal Diário do Iguaçu

Depois de 21 horas de julgamento, o ex-caminhoneiro Rosinei Ferrari foi condenado a 21 anos de prisão pela morte de 16 pessoas e 16 crimes de lesão corporal - Foto: Bia Piva/Jornal Diário do Iguaçu 

Na última semana, uma das histórias mais trágicas do trânsito de Santa Catarina chegou ao seu capítulo final. O julgamento do caminhoneiro responsável pela segunda colisão na tragédia da BR-282, foi realizado na quarta (28) e quinta-feira (29) no Fórum da Comarca de Chapecó, frente aos olhos atentos e curiosos de familiares das vítimas, além da imprensa local e regional.  No banco dos réus, Rosinei Ferrari, motorista do caminhão que furou a barreira, causando a morte de 16 pessoas. Outras 41 pessoas ficaram feridas e foram encaminhadas para hospitais da região.

O julgamento que teve início por volta das 8h de quarta-feira (28) foi presidido pelo juiz Jeferson Vieira e acompanhado pelo promotor do Ministério Público e pelos Defensores Públicos que atuaram na defesa do motorista. Sete jurados também acompanham os debates. No processo de cerca de 3.500 páginas, Ferrari respondeu por 16 homicídios e 41 crimes de lesão corporal.

O depoimento do perito criminal

O primeiro a ser ouvido foi o perito criminal Luiz Almir Schneider Maran responsável pelo laudo que indicou a existência de inúmeros problemas de freios, tanto no cavalo motor quanto no reboque, principalmente com desgaste nas lonas, tambores e sistema do freio de emergência. Ele explicou que uma lona de freio comum tem 18mm de espessura, com limite de uso em 7mm. E em algumas rodas do veículo conduzido por Rosinei, essa peça possuía 5mm, além de marcas de desgaste que poderiam impedir o funcionamento correto dos freios. No reboque a falta de peças e reparos improvisados com amarras e pregos foram descritos.

Maran falou que no trajeto antes do acidente – um trecho de muitas curvas de declives acentuados na BR-282 – o tacógrafo mostrou uma redução de velocidade, possivelmente em uma tentativa do motorista de parar o veículo, mas na descida o caminhão carregado com 30 toneladas de açúcar, três toneladas a mais que o permitido, ganhou velocidade novamente e chegou a 102km/h.

Ferrari prestou depoimento na quarta-feira (28) e não esteve presente na parte final do julgamento - Foto: Reprodução RBS TV

Rosinei Ferrari quebra o silêncio

Perto das 12h, Rosinei Ferrari foi chamado para prestar depoimento. Antes dele, a esposa também foi questionada pelo juiz na condição de informante e falou sobre o trabalho e a rotina do marido, antes e depois do acidente. Ela respondeu os questionamentos do juiz, Jeferson Vieira, do MP e da Defensoria Pública.

Em sua fala, Ferrari contou que trabalhava há poucos meses com o caminhão. Ele tinha carregado açúcar na cidade de Rio Brilhante (MS) com destino a Caxias do Sul (RS). Questionado pelo juiz, ele disse que o caminhão não havia apresentado problemas nos freios até entrar na BR-282, pouco antes do ponto onde ocorreu a colisão. “Eu segui pela rodovia e alguns carros passaram e deram sinal de luz. Eu pensei que era alguma blitz da polícia. Em seguida vi uma ambulância passando, imaginei que se tratava de um acidente e reduzi a velocidade. Na descida eu vi a fila, mas o caminhão não parou. Eu consegui contornar uma curva para a esquerda, outra para a direita e vi todas aquelas pessoas e o caminhão ganhando velocidade. Eu fiquei apavorado. Tentei desviar de quem estava do lado direito e joguei para a esquerda, mas tinha mais gente. Então eu ouvi um estouro e depois apaguei, só acordei no hospital no dia seguinte”, relatou.

Em vários momentos, Rosinei se emocionou durante o depoimento e pediu desculpas para as famílias das vítimas. “Eu nunca quis machucar ninguém. Estava trabalhando para sustentar a minha família e sei que todos naquele local estavam tentando ajudar as vítimas do outro acidente. Mas queria pedir que tentassem me perdoar se puderem. Eu também sofro muito por tudo o que aconteceu”, disse.

Após o acidente, Rosinei ficou 73 dias internado se recuperando dos ferimentos que sofreu e depois ficou preso por um ano e oito meses. Em 2009 conseguiu uma liminar do Supremo Tribunal Federal para responder em liberdade.

A sentença

Depois de 21 horas de julgamento, o ex-caminhoneiro Rosinei Ferrari foi condenado a 21 anos de prisão pela morte de 16 pessoas e 16 crimes de lesão corporal. A sentença foi lida por volta das 13h30 desta quinta-feira (29) pelo juiz da 1ª Vara Criminal de Chapecó, Jeferson Vieira. Rosinei poderá recorrer da decisão em liberdade. Ele foi condenado por 14 homicídios dolosos (quando se assume o risco de provocar os resultados, no caso a morte das vítimas), e dois crimes de homicídio culposo (sem a intenção de matar). Também foi sentenciado por 16 lesões corporais dolosas.

Ferrari não estava presente na parte final do julgamento que foi acompanhado por familiares do ex-motorista e pelos Defensores Públicos que cuidam do caso. O juiz que presidiu a sessão falou sobre a pena estipulada. “É um processo bastante complexo, discutido em um júri longo. E a decisão dos jurados foi no sentido de reconhecer o réu como responsável por 14 crimes de homicídio doloso, dois crimes de homicídio culposo e 16 crimes de lesão corporal dolosa. Isso resultou na pena de 21 anos de reclusão”, relatou.

O juiz explicou ainda sobre o cálculo das penas sobre o crime. “O instituto do concurso formal, regra prevista no Código Penal Brasileiro, determina que nessas situações as penas não devem ser somadas aritmeticamente. Deve ser aplicada a sanção mais grave, com um acréscimo fracionário. Diante dessa regra e como os fatos foram decorrentes de uma única ação, foi aplicada a pena total por todos os crimes pelo que o réu foi denunciado, de 21 anos de reclusão”, disse Vieira.

Conforme a sentença, Ferrari poderá recorrer da decisão em liberdade. “Uma vez que o Supremo Tribunal Federal deferiu em favor dele, isso ainda em 2009, e não há nenhum fato novo que modifique essa decisão, ela deve ser mantida. As partes podem recorrer da decisão e a sanção só será executada após os recursos cabíveis”, finalizou Vieira.

O juiz falou também sobre a próxima fase deste processo, que é o julgamento do proprietário da empresa, Gilmar Turatto. Vieira explicou que o processo está em fase final e que o julgamento deve ser marcado entre o fim de 2015 e início de 2016.

Fonte: Camila Pompeo/ O Líder
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