RECÉM-CASADAS - 08/04/2017 09:12 (atualizado em 10/04/2017 14:26)

Uma união de corações e escovas de dente

Confira a história de Silvia e Samara Felini, que há uma semana disseram “sim”, em uma celebração a toda forma de amor
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Silvia e Samara - Foto: Arquivo Pessoal

Toda a história de amor merece uma boa trilha sonora. E já que o assunto é romance, é ouvindo Coldplay que escolho contar a história de hoje. Então, se você é emotivo, te aconselho a trazer o pote de lencinhos para mais perto, porque é bem possível que algum cisco caia no seu olho. “Porque você é um céu, você é céu um cheio de estrelas.// Eu vou lhe dar meu coração.” Com uma letra assim, não é a toa que muitos casais escolhem “A Sky Full Of Stars”, para embalar os seus melhores momentos a dois. 

O último domingo - 2 de abril – por exemplo, superou o reservado de datas especiais no calendário de um casal em especial. A data marcou a união de duas histórias diferentes, mas também muito iguais. Se o destaque dos casamentos é a noiva, imagine agora uma cerimônia que não tem apenas uma, mas duas noivas completamente apaixonadas. Assim foi o casamento da educadora física Silvia Leticia, 23, e fisioterapeuta, Samara Luiza, 25 anos. De sobrenome Oliveira, não foi nenhum dilema para Samara assumir também o sobrenome da amada. Agora, Samara assina o Felini, de Silvia. 

Foi junto dos amigos e na presença da família, que as noivas disseram “sim” e dividiram o momento de extrema felicidade. O casamento no civil teve direito a buquê de rosas vermelhas e das tradicionais vestes brancas. Samara optou pelo vestido, Silvia não deixou o jeito “moleca” de lado e mostrou que tem estilo até para “subir ao altar”. As fotografias simples deixaram claras a simplicidade e o sentimento traduzidos nos olhares de cumplicidade e sorrisos que abundam nas imagens. As fotos foram compartilhadas no Facebook e receberam centenas de curtidas e mensagens de carinho. 

Mas já que nos adiantamos e revelamos o desenrolar da história, é melhor voltar um pouquinho e compartilhar como tudo começou. Foi através de amigos que o encontro entre Samara e Silvia foi possível. Silvia era carismática, sorridente e engraçada. E foi essa simpatia que chamou a atenção de Samara. Com seu jeito educado e doce, Samara também atraiu os olhares de Silvia e, quanto mais o tempo passava, ficava evidente a química entre as duas.

- Foto: Arquivo Pessoal

Frequentando os mesmos lugares, aos poucos, a aproximação ficava inevitável e o que parecia amizade, foi dando espaço a um sentimento bem diferente. “Nunca havíamos olhado uma para outra com nenhum interesse além da amizade. Na época em que fomos apresentadas a Samara estava em um relacionamento, só foi após o término deste que passamos a conviver mais e de fato nos conhecermos melhor. Com o tempo fomos descobrindo muitas afinidades, em nossas profissões, no que almejávamos construir em nosso futuro, em nossas famílias, nos nossos gostos por leitura, música, então podíamos conversar sobre qualquer assunto por longos períodos de tempo”, recorda Silvia. 

Ao mesmo tempo em que a história de Silvia e Samara começava a tomar outro rumo, a distância já incomodava e se tornava um obstáculo. Samara residia em Descanso e Silvia em São Miguel do Oeste. Em fevereiro do ano passado, o casal começou a se relacionar e em abril resolveu assumir o namoro. O relacionamento evoluiu e Samara optou por se mudar. E, sem que planejasse, o casal acabou “juntando as escovas de dente”. 

“Nosso relacionamento já havia iniciado com amizade, por isso, sempre tivemos muita cumplicidade, carinho, respeito, sobretudo liberdade para conversar sobre qualquer assunto o que gerou muita confiança em nossa relação. Falávamos todos os dias, mas por morarmos em cidades distintas e pela rotina de nossos trabalhos não estávamos sempre juntas. O estar perto era cada vez mais desejado, até que a companhia uma da outra passou a ser indispensável”, lembram. 

Como todo o casal, a sintonia e o sentimento despertaram em Samara e Silvia, o sonho do casamento. Em fevereiro deste ano, decidiram marcar a data, procuraram um cartório de registro civil e já estão de olho na cerimônia religiosa que deve acontecer até o final do ano. “Não tivemos nenhuma dificuldade, pois o casamento homoafetivo tem as mesmas exigências do casamento heteroafetivo. A habilitação de casamento ocorreu dentro de 60 dias. O dia do nosso casamento civil foi um dia incrível, fizemos uma comemoração simples, tivemos ao nosso lado parte de nossa família e nossos padrinhos. No final do ano faremos uma cerimônia religiosa, seguindo a doutrina Espírita, para podermos comemorar com todos nossos amigos e família, como sempre sonhamos”, projetam.

A DESCOBERTA 

Na foto, Samara (à esquerda) e Silvia (à direita), no cartório onde registraram o casamento - Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Silvia e Samara são bem resolvidas com sua orientação sexual, mas nem sempre foi assim. A “descoberta” de Silvia ocorreu mais cedo, ainda na adolescência. Esta foi a fase determinante para que ela aceitasse sua opção sexual e se assumisse como realmente era. “Sempre soube que era uma criança diferente. Aos 16 anos tive certeza que era homossexual e me vi obrigada a contar para minha mãe e meu padrasto, os quais não aceitaram, por medo do que os outros iriam falar. Diferentemente do meu pai que me compreendeu de imediato. Meus amigos tanto da escola quanto do trabalho sempre me respeitaram. Aos 18 anos decidi sair de casa para ter liberdade de ser como sou. Hoje em dia tenho uma relação de muito amor com minha família, principalmente com os meus irmãos”, relata.

Para Samara, no entanto, compreender o que estava sentindo foi mais complicado. Contar pra família então? Nem se fala. Tendo passado por um relacionamento heterossexual de 10 anos e pela perda de um sobrinho, Samara avaliou se o momento seria era o ideal para dar a notícia. “Havia perdido meu sobrinho de nove anos, dois meses antes de quando decidi contar pra minha mãe. Não me achava no direito de causar mais dor para minha família, mas à medida que o tempo passava eu estava me sentindo mais sufocada, minha mãe sempre foi minha melhor amiga e sentia que já não mais podia esconder isso dela e nem de mim”, recorda.

Aos 24 anos, Samara tomou coragem e abriu o coração para a mãe. Quando resolveu contar, ainda não havia se relacionado com nenhuma mulher. “A primeira reação é dos pais acharem que é somente uma fase e o medo do que os outros vão pensar. Minha família recebeu essa notícia da melhor forma possível. É claro que quando nascemos há um futuro projetado para gente, e ninguém planeja ter um filho ou filha gay. Com relação aos meus amigos e família sinto que sou amada da mesma maneira e que para eles o que importa é a minha felicidade”, conta.

E mesmo em pleno século 21, atitudes homofóbicas ainda são comuns na sociedade. São os comportamentos criminosos ou desrespeitosos de uma minoria da população, que revelam o preconceito que ainda existe contra os homossexuais. “O preconceito existe sim, as pessoas agem de modo intolerante quando ignoram e não aceitam que podemos ser diferentes, alias cada um de nós é diferente seja fisicamente, emocionalmente, sexualmente, enfim não temos uma construção de caráter e valores padronizados. Somos o resultado daquilo que nos foi repassado na nossa educação família, daquilo que cremos, estudamos, sentimos e vivemos. Perdemos totalmente a razão quando achamos que podemos matar um semelhante, por que ele ama alguém do mesmo sexo, quando matamos alguém por que o tom da pele é mais escuro, ou porque acreditamos que nossa raça ou condição social nos privilegia de algum modo”, avalia Silvia.

E como todo o casal, está nos planos futuros de Samara e Silvia aumentar a família. Até lá, as duas querem se dedicar às profissões e à união que formalizaram há uma semana. “Pensamos sim em ter filhos. Hoje existem técnicas de reprodução assistida, como a inseminação artificial e a fecundação in vitro. Essas técnicas possibilitam que casais homoafetivos possam gerar seus próprios filhos. Nosso maior desejo é ter nossa família cada vez mais unida e mais completa, com nossos filhos, tendo nossas carreiras de sucesso e que possamos crescer com nossa profissão, é poder ser família como qualquer outra família, e ter assegurados os mesmos diretos”, afirmam.

- Foto: Arquivo Pessoal

“Nossa mensagem é para ser quem somos, 
sem medo de opressão, 
morte ou discriminação pela condição sexual. 
Não temos o sonho utópico de vivermos 
aqui e não sentirmos preconceito, ele vai existir 
ainda por muito tempo, 
o que nós não queremos é que ele nos limite 
de sermos quem somos, 
ou que ele nos impeça de expressarmos o amor, 
ele não pode nos impedir 
que tenhamos nossos filhos, 
ou que nossos sonhos sejam interrompidos 
pela violência ou intolerância”.

Samara e Silvia

O CASAMENTO HOMOAFETIVO EM CARTÓRIO

Atualmente no Brasil, não há uma legislação permitindo o casamento gay. Hoje, os casais são amparados pela determinação do Conselho Nacional de Justiça, órgão de controle externo das atividades do Poder Judiciário, para que todos os cartórios do país realizem a união estável de casais do mesmo sexo. Além disso, obrigou a conversão da união em casamento e também a realização direta de casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. 

Em São Miguel do Oeste, o Cartório de Registro Civil formalizou apenas dois casamentos homoafetivos, o de Silvia e Samara e outro no final do ano passado. “SC foi o 12º a permitir a realização de casamentos. Aqui em São Miguel do Oeste demorou um pouco para acontecer. As duas únicas uniões que registramos foram com casais de meninas”, explica a oficial registradora, Flávia Nogueira Lageman.

Antes da determinação, muitos cartórios continuavam negando o pedido dos casais alegando ausência de lei. Desde 2013, ano da determinação, os homossexuais que quiserem se casar em Santa Catarina passam pelo mesmo procedimento nos cartórios que os heterossexuais. Mesmo sendo um processo normal, muitos casais ficam receosos no momento de registrar o compromisso. “O procedimento é o mesmo, como se fosse um casal heterossexual, o prazo é o mesmo. Não há nenhum tipo de discriminação. O regime de comunhão é escolhido pelo casal. Percebemos resistência e receio por parte da população e percebemos um certo receio até quando as pessoas vão ao cartório solicitar informações. Quando é casal homossexual, percebemos uma retração”, declara.

Para formalizar a união, o casal homossexual deverá levar ao cartório documentos pessoais dos dois, como RG, CPF e certidão de nascimento. O oficial do cartório vai providenciar a habilitação do casamento e publicar proclamas (a notícia do casamento para que se alguém for contra poder se manifestar). Esse informe é publicado no Diário Oficial e no mural do cartório. Na sequência, o casal deve escolher o regime do casamento que pode ser de comunhão parcial ou universal ou separação total de bens. A oficial registradora explica as vantagens da formalização. “A partir do momento em que se formaliza a união estável ou o casamento, não há qualquer duvida sobre os efeitos patrimoniais. Havendo o falecimento ou separação do casal, eles passam a ter direito à pensão e herança a depender do regime de bens adotado. Então, sem duvida, a segurança jurídica é incomparável em relação a uma relação não registrada”, finaliza.
Comemoração foi com os amigos após o casamento - Foto: Arquivo Pessoal



Fonte: O Líder/Camila Pompeo
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