Recomeçar - 07/11/2017 09:37 (atualizado em 07/11/2017 11:41)

Em busca de uma nova chance

Neste primeiro capítulo da nossa série de reportagens a Liberdade Encarcerada vamos relatar o que nossa equipe de reportagem vivenciou e ouviu dos presos dentro da Unidade de Prisional Avançada de São Miguel do Oeste
Comente agora!
Recomendar correção
Obrigado pela colaboração!
Foto: Grupo WH Comunicações 

A equipe de jornalismo do Grupo WH Comunicações preparou uma Websérie para mostrar detalhes do Sistema Penitenciário de São Miguel do Oeste. E, no jornal O Líder vamos trazer a série de Reportagens relatando o dia a dia da Unidade Prisional. Desde o mês de junho deste ano, os repórteres acompanharam o dia a dia da Unidade Prisional Avançada (UPA) na cidade e vão mostrar histórias de detentos e ex-detentos que até hoje ninguém mostrou. Acompanhamos o importante trabalho de agentes prisionais e a atuação do Poder Judiciário dentro da Unidade. O processo de ressocialização dos detentos também é o foco desta série de reportagens que vamos publicar semanalmente. 

É junho de 2017, na Unidade Prisional Avançada de São Miguel do Oeste, nossa equipe de reportagem se prepara para conversar com presos que estão na ‘regalia’(Uma espécie de recompensa, concessão aplicada em virtude de bom comportamento). Somos acompanhados de agentes prisionais até a cozinha, onde os presos regalias preparam o almoço. “De manhã cedo tem um turno que levanta faz o café para os presos, para os agentes, e após, começamos a fazer a alimentação dos reclusos que estão no regime fechado”, conta o reeducando que vamos chamar de Paulo. 

Enquanto conversamos na porta da cozinha, Paulo que veste uma touca na cabeça e uniforme em tons verde claro, segura uma mão na outra e conversa abertamente sobre o trabalho que ele e outros nove reeducandos desempenham na cozinha. “A gente que está no regime, na confiança, trabalha na cozinha, a gente tem livre acesso, mas à noite depois que entregar a mesa da janta, os agentes jantam, a gente janta e vamos para a cela. Dormimos e de manhã cedo a gente faz o café e ficamos fazendo o almoço”, detalha. Paulo relata que a regalia lhes permite ir até fora da Unidade buscar as compras que chegam até o portão, além disso, ele revela que os ‘regalias’ podem pegar sol e tomar chimarrão ao sol no intervalo. 
Foto: Grupo WH Comunicações 
“Para conquistar a regalia a pessoa precisa primeiramente respeitar, se reintegrar, fazer as coisas certas que deveria ter feito antes de vir para cá. Fazendo isso a pessoa consegue obter regalia, uma confiança, fazendo as coisas certas e obedecendo a unidade prisional e os agentes prisionais”, nos conta.
Enquanto as panelas estão ao fogo e o cheiro de comida começa a invadir o ambiente, Paulo me explica que o trabalho que fazem dentro da unidade reduz a pena, ou seja, a cada três dias de trabalho reduz um da pena ou dez dias por mês e com as aulas ganha mais quatro dias de remissão, reduzindo até 14 dias por mês. “A cabeça parada é oficina do inimigo, a pessoa tendo um trabalho, um exercício para fazer a pessoa acaba esquecendo coisas ruins que não convém da parte de Deus, trabalhando assim a gente se distrai conversa, dá mais paz para a pessoa”, revela. 

Da cozinha, eu e Paulo seguimos até uma área externa da Unidade Prisional, nos sentamos frente a frente ao sol para conversar. No espaço que é mais reservado, o detento nos conta que chegou a unidade há mais de 75 dias e conta como sua vida mudou depois de preso. “Ah isso dá um choque no coração da gente simplesmente porque a pessoa se distancia dos familiares. Eu moro longe, minha família mora longe, fica difícil para eles vir, eu tenho dois filhos menores de idade, então isso gera um transtorno bem grande. A pessoa se arrepende entre aspas, alguns se arrependem pelos atos cometidos, assim como aconteceu comigo, eu me arrependi muito, de um tempo pra cá eu mudei muito. Logo que eu caí preso eu pensava que os policiais, os agentes eram meu pior inimigo, mas depois de um tempo na verdade eu entreguei minha vida para Jesus ali atrás no regime fechado e de lá pra cá Deus começou a trabalhar na minha vida, comecei a ganhar regalia, confiança”, nos conta. 

Paulo em uma conversa tranqüila nos conta que se arrependeu do ato que cometeu, preso por tráfico de drogas deseja que seus filhos que ainda não o visitaram na prisão nem mesmo o façam, pois diz que não gostaria que eles vissem ele neste local. A liberdade é uma das coisas que ele diz que mais sente falta, da presença da família, dos filhos que o recebiam ao retornar do trabalho. “A pessoa quando se arrepende pensa em tudo isso, então o arrependimento ele vem tarde, mas ainda bem graças a Deus que esse arrependimento veio pra mim”, argumenta. 
O detento que fala muito na fé em Deus e nas palavras da Bíblia faz planos e diz que a primeira coisa que pretende fazer ao sair da Unidade é pedir perdão aos filhos e pedir sua companheira em casamento. 
Foto: Grupo WH Comunicações 
“Vê lá uma saúde, por favor?”  
Após a conversa com Paulo nossa equipe continua na Unidade Prisional Avançada e durante as gravações um dos presos que havia chegado na unidade naquela madrugada bastante agitado solicita por atendimento médico. “Quero fazer um Raio X do peito, lá”, ele fala da cela. O agente que chegou junto à cela, do lado de cá das grades lhe responde que deve lhe fornecer uma medicação. Porém o preso insiste: “Não, não, eu quero um médico”. E depois de uma rápida conversa os agentes decidem o encaminhar até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24H). “Para mim te ajudar você tem que me ajudar, se você incomodar eu não consigo te ajudar”, avisa o agente ao preso. 

Várias medidas de segurança são tomadas tendo em vista a segurança do detento, dos agentes e das demais pessoas. Um preso do regime regalia é quem abre as portas da cela e dos corredores, do outro lado das grades o agente penitenciário coloca as algemas nas mãos e nos pés do preso e só assim ele sai da unidade para viatura. O detento é colocado na viatura e o trabalho de escolta inicia. O rápido deslocamento exige atenção dos agentes para que o atendimento aconteça e o detento possa voltar a unidade com segurança. Nesse caso o detento ficou em observação por algumas horas acompanhado de agentes prisionais e logo após retornou a unidade prisional. 

“Ah, foi normal, ‘por causa que eu já cai’, não foi a primeira vez” 

Foto: Grupo WH Comunicações 

Ainda no mesmo dia, de volta para a Unidade Prisional, nossa equipe conversou com um detento do regime fechado. O detento que vamos chamar de Renato está preso há cerca de três anos por assalto. Renato que está sentado em uma das camas da cela de frente para nosso repórter tem suas mãos algemadas apenas por questão de segurança. Enquanto conversa mantém seus pés irrequietos e balança o corpo enquanto fala de forma agitada. A cela que é pequena, pouco mais de 20 metros quadrados abriga até 20 presos. A cor das paredes é de um tom amarelado, a luz é baixa e deixa uma cor quase que ocre no ambiente. Dois agentes prisionais nos acompanham o tempo todo durante a conversa.

Na porta da cela que entramos, duas páginas de caderno escritas à mão apresentam as regras de convívio com os títulos: “Missões do Missioneiro” e “Obrigação dos Irmão”. Logo na entrada da cela alguns colchões estão colocados em pé, outros enrolados, certamente à noite são colocados no chão já que não há camas o suficiente para todos. As camas são de concreto como se fossem beliches uma acima da outra e se concentram nas laterais da cela. Ao fundo, algumas sacolas plásticas penduradas com objetos pessoais dos presos. Próximo ao teto, ventiladores pendurados para os dias de mais calor. 

Renato que é de poucas palavras, responde monossilabicamente às perguntas que fazemos. E, quando questionado sobre como foi chegar à prisão, Renato demonstra naturalidade ao responder. “Ah, foi normal, ‘por causa que eu já cai’, não foi a primeira vez. Ah o dia a dia tem que levar como se fosse na rua, porque é teu comportamento que vai valer. Dar o respeito para ser respeitado”. 

Sobre as perdas que a prisão traz Renato fala sobre a família, que no caso dele, desde a sua prisão não o foi visitar e diz que nunca mais teve contato, pois segundo ele, a família não aceita o crime e por isso, ele se considera a ‘ovelha negra’ da família.  “Aqui é uma escola, aqui você aprender a dar valor a várias coisas que só depois que você perde para perceber, tipo a família, a família é tudo, às vezes a gente está lá fora e não dar valor. Por causa do crime, eles são contra e por causa do crime eu sou a ovelha negra da família”, diz Renato.

Foto: Grupo WH Comunicações 
De dentro da cela em que conversamos com Renato podemos ouvir os presos que estão lá fora na área do banho de sol que é de duas horas. Renato que conversa com nosso repórter diz que quando sair tem planos de arrumar um emprego, porém diz que é muito difícil conseguir por conta dos antecedentes. E se pudesse voltar no tempo ele nos conta que daria mais valor à família e revela que os amigos que teve foram apenas amigos do crime, que estiveram com ele só quando teve dinheiro e bebida. “Aquilo lá não é amizade”, considera. 

Renato convive com outros 18 detentos dentro da cela por 22 horas por dia, com outras duas horas de banho de sol. Enquanto conversa ele continua balançando o corpo demonstrando o nervosismo ao falar sobre a rotina. “Todo dia a mesma rotina, cansa, cansa, estressa, vários estresse, porque não é fácil agüentar, tem que ser muito forte para agüentar, um ano, dois anos”. Já de pé, Renato que veste o uniforme laranja que identifica os presos do regime fechado mostra que a janela da cela que é fechada apenas com grades no inverno ele e os demais detentos fecham com uma toalha para que não entre frio. E no verão, ele diz, “tem que agüentar né”. No local os detentos compartilham o mesmo banheiro, algumas atividades que para quem está em liberdade são normais, para os detentos exigem mais habilidade para serem executadas. O banheiro fica em um dos cantos da cela, sem porta, apenas com uma cortina. O chuveiro e o vaso sanitário ficam no mesmo canto.   

Encerramos nossa conversa com Renato, os agentes penitenciários fazem uma espécie de vistoria nas celas e com um pedaço de madeira eles verificam se há algum sinal de depredação nas paredes e o banho de sol dos demais presos se encerra. Chamados um a um, de cabeças baixas eles retornam às celas. Na próxima reportagem da série vamos trazer a importância do poder judiciário dentro da unidade prisional e o relato de familiares dos detentos. 

Assista o primeiro episódio da Web Série:
VEJA MAIS IMAGENS
Fonte: Débora Ceccon/ O Líder
Publicidade
Publicidade
Nenhum comentário enviado
:
Cadastro WH3
Clique aqui para se cadastrar
Carregando...