RECOMEÇAR - 13/11/2017 09:10

RECOMEÇAR: O que deixei lá fora

Segunda reportagem da série “Recomeçar: Em busca de uma nova chance” mostra a atuação do Poder Judiciário no Sistema Prisional de São Miguel do Oeste e a angústia das famílias que esperam por alguém que está preso
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Detentos são chamados um a um de volta às celas após o banho de sol - Foto: WH Comunicações

O dia-dia dentro de uma unidade prisional pode transformar a personalidade do detento de muitas formas. Na maioria das vezes, a ociosidade da vida na prisão é derradeira quando o assunto é ressocialização.  Para melhorar os índices de ex-detentos reinseridos de forma digna, tanto na sociedade quanto no mercado de trabalho, é que a Unidade Prisional Avançada (UPA) de São Miguel do Oeste tem focado nas oportunidades dentro e fora da prisão. 

Um trabalho conjunto do Poder Judiciário, promotoria, defensoria pública e sistema prisional tem garantido aos detentos da Unidade, momentos de troca de conhecimento e qualificação profissional. E é justamente para contar como o Poder Judiciário tem atendido a essas demandas dentro e fora da unidade, que o Jornal O Líder dá seguimento à série de reportagens “Recomeçar: Em busca de uma nova chance”. Na edição de hoje você também vai conhecer a realidade angustiante dos familiares que esperam por alguém que está atrás das grades.

“ISSO AQUI NÃO É UM HOTEL”

Juiz Márcio Cristófoli: “Sempre acreditei que o trabalho e estudo são formas de melhorar o retorno do cidadão para o convívio em sociedade” - Foto: WH Comunicações

É por volta de 9h30 de uma quinta-feira do mês de junho, quando nossa equipe de reportagem chega à Unidade Prisional Avançada (UPA) de São Miguel do Oeste. Aguardamos até a chegada do diretor do Fórum da Comarca, o juiz Márcio Cristófoli. Assim que o magistrado adentra à Unidade, é recebido de forma simpática e cumprimentado pelos agentes prisionais. 

Cristófoli já está, então, preparado para atender aos detentos. A reportagem o acompanha e observa de longe a conversa que ocorre por entre as grades. Com uma planilha em mãos, o juiz vai nominando um a um dos detentos que estão no pátio, durante o período chamado de “banho de sol”. Conforme vão sendo chamados, os detentos retornam ao interior da Unidade e tem um momento de conversa com o magistrado. Na maioria das vezes, a conversa com os reeducandos serve para tirar dúvidas sobre os processos aos quais eles respondem.

 “Aqui temos uma realidade de reeducandos muito diferentes do que vemos na TV e nos grandes centros, a maioria deles são pessoas da região que acabaram cometendo um erro e em função desse erro receberam uma sentença penal condenatória e estão fazendo o resgate dessa pena. A unidade é uma unidade de transição, então o detento vai ficar conosco um tempo e à medida que tem um bom comportamento, consegue retornar à sociedade de forma mais rápida. Essa é uma unidade de cumprimento de pena, então hierarquia, disciplina e respeito fazem parte do sistema prisional e nunca tivemos nenhum incidente”, menciona o juiz.

O juiz visita a unidade prisional de São Miguel do Oeste ao menos uma vez por mês. Por lá ele fiscaliza a estrutura e mantem relacionamento estreito com a equipe de segurança. Em uma caminhada pelo pátio da Unidade, Cristófoli defende a necessidade da implantação de uma unidade prisional agrícola autosustentável, onde os detentos cultivariam os alimentos para a alimentação dentro da prisão. O modelo diminuiria o custo que cada preso gera para o Estado de Santa Catarina e resultaria ainda em mais uma forma de ocupação dos detentos. 

“Até que não tenhamos essa unidade, procuramos fazer de outra maneira. Normalmente temos em torno de 90 reeducandos. Além de São Miguel do Oeste, temos Descanso, Mondaí e Itapiranga, são as quatro comarcas que recebemos reeducandos. Hoje temos em torno de um terço deles trabalhando, que é nossa capacidade. Temos 10 ou 12 trabalhando na cozinha, limpeza e manutenção e hoje, com as oportunidades que as empresas tem dado e a própria Prefeitura, temos 20 reeducandos que saem da Unidade, trabalham, e voltam à noite”, menciona.

Para fazer parte dos convênios e poder trabalhar fora da prisão, os detentos precisam responder a uma série de requisitos, além de apresentar um bom comportamento dentro da unidade. “Volto a falar: isso aqui não é um hotel, é uma unidade de cumprimento de pena, eu não posso simplesmente liberar todo mundo porque não tenho perfil e condições de segurança. O detento precisa passar um tempo conosco para ganhar a confiança dos agentes, cumprir um tempo mínimo de pena e daí sim poder ir para o trabalho externo. A outra grande vertente que temos é o estudo, isso sim é uma coisa que, aqui dento da unidade, conseguimos ofertar a todos que tem um bom comportamento”, explica.

Professora do Ceja ministra aula aos detentos com bom comportamento dentro da unidade - Foto: WH Comunicações

Durante a breve caminhada pelo pátio, conhecemos a recém-concluída sala de aula que receberá uma série de cursos práticos de qualificação profissional, bancados com recursos de transações penais. Os arremates finais na pintura e limpeza do espaço são feitos pelos presos na qualidade de “regalia”. Do primeiro curso, o de Mecânica Básica de Motocicletas, assistimos à aula inaugural. 15 detentos com melhor comportamento e que ainda não tinham conquistado o benefício do trabalho externo foram selecionados para estudar no local equipado com mesas, cadeiras e duas motocicletas. A iniciativa foi uma parceria com o Senai, mas, outras já estão em tratativas.

“Ocupando a mente do cidadão, vai chegar de noite e ele vai pensar na família, vai pensar em coisas boas, vai diminuir o tempo de pena e voltar para a sociedade, a gente espera, melhor. Sempre acreditei que o trabalho e estudo são formas de melhorar o retorno do cidadão para o convívio em sociedade. Não tem prisão perpétua no Brasil, não se pode tirar um cidadão da sociedade e não ter mais contato com ele. Ainda que ele receba 30 anos, que é o máximo de pena que alguém pode cumprir, de regra esse cidadão vai ficar um tempo conosco no sistema e vai retornar para a liberdade. Acredito que precisamos evoluir nesse sentido para que ele, com o seu trabalho, pague pelo menos em parte o custo que ele gera para o Estado de SC e para a sociedade”, finaliza.

A ESPOSA QUE ESPERA AQUI FORA PELO MARIDO PRESO

É segunda-feira, dia de visita na Unidade Prisional Avançada de São Miguel do Oeste. Familiares vão chegando aos poucos. Todos passam por uma recepção onde verificam o cadastro e deixam produtos de higiene aos seus familiares que estão presos e aguardam o horário da visita para conversar, falar sobre o mundo aqui fora. Cada item trazido pelos familiares passa por uma rigorosa inspeção dos agentes prisionais. E, a qualquer sinal suspeito o item é separado ou descartado.

A mulher que vamos chamar de Michele está hoje na Unidade para visitar seu marido que está preso há cinco meses. Essa é a rotina dela a cada 15 dias desde que ele foi preso. Tímida e de poucas palavras, convidamos ela para nos contar sobre a vida de quem espera por alguém que está preso. Entramos em uma sala mais reservada e próximo de uma janela iniciamos nossa conversa. A mulher nos conta que além dela sua sogra também visita o filho naquele mesmo dia, e assim, sobram 15 minutos para cada uma. “Ele fica muito feliz”, revela. Michele acredita que seu marido deve ficar preso pelo menos mais dois anos no regime fechado e assegura que estará esperando por ele quando retornar para casa.

Maria sobre visita ao irmão preso: “A gente conversa através de uma janelinha com grade na frente dele” - Foto: WH Comunicações

Além das visitas que faz a cada 15 dias onde conversa com o marido pelo parlatório separados pela parede se vendo através de um vidro e se comunicam por um interfone, Jaqueline também tem a oportunidade de visita intima uma vez ao mês. “Ele pergunta como está a vida, ele tinha passarinhos, alimentava beija-flor e ele quer foto para ver, então mando no correio. Mando cartas, cartão, uma base de umas quatro cartas por mês”, conta.

Michele nos conta que não aceitou a prisão no inicio e, segundo ela se revoltou muito, mas acredita que todos merecem uma segunda chance, afinal, “todo mundo erra”, afirma. E por ele, seu marido estar na prisão ela crê que ele está corrigindo seu erro. Com riso nervoso ela lembra que na primeira visita que fez não conseguiu conversar muito com ele, apenas chorava muito. “A gente precisa estar ciente do que está acontecendo e o que vai acontecer, não tem como mudar as coisas, tem que passar por isso e pronto”, diz.

“Cada visita que a gente faz a gente passa o dia deprimida”

“Todo mundo erra”, diz Michele, esposa de um detento - Foto: WH Comunicações

À espera da visita pra rever o irmão preso, estão duas senhoras que são irmãs. Porém apenas uma aceita conversar com nossa equipe a irmã mais velha do preso. Sentamos ao sol em uma área externa da Unidade Prisional enquanto elas aguardam ser chamadas. Sentamos frente e a frente e a irmã que vamos chamar de Maria que detalha o ambiente das visitas que são feitas através do parlatório. “A gente conversa através de uma janelinha com grade na frente dele e do nosso lado, tem ainda um vidro grosso no meio, ele vem algemado e não temos toque com ele, só pelo telefone”, explica.

Maria conta que geralmente traz nas visitas dinheiro para as compras. “Eles compram goluseimas, a comida aqui é boa, ao menos ele não reclama, diz que é bem tratado, dão os remédios para ele e quando falta nos ligam”, observa. A irmã que não perde uma visita ao seu irmão preso com olhar triste revela que as visitas apesar de ser a oportunidade de revê-lo trazem sentimentos tristes ao dia. “Pra nós é bastante triste, deprimente, cada visita que a gente faz a gente passa o dia deprimida. Não tínhamos muito contato com ele antes, mas pra nós ele foi sempre querido”, recorda.

- Foto: WH Comunicações

Maria gosta de contar sobre o bom coração que seu irmão tem e recorda momentos vividos juntos quando ele estava em liberdade e reforça que ele deveria ter uma segunda chance para recomeçar. “Ele tem um coração que se tu pedir a camisa ele dá de bonzinho que ele é. Eu acho que ele merecia estar solto, de eles darem uma chance pra ele, porque ele não matou ninguém, não roubou. Ele é muito querido, ele deveria ter uma chance de sair e recomeçar porque ele não se envolveu com droga, nada, nada disso. É deprimente, mas fazer o que”, afirma.

É hora da visita de Maria e sua irmã, precisamos encerrar nossa conversa, nos despedimos e elas seguem com o objetivo que é fazer o dia do irmão preso um pouco melhor com o mínimo de contato com o mundo externo através da visita.
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Fonte: O Líder / Camila Pompeo / Débora Ceccon
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