SER MULHER - 04/03/2019 08:38

Uma história de luta, persistência e aprendizado

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“Saiba que tudo tem um motivo e se Deus nos permitiu é porque podemos, vá em frente”, disse a aposentada
Irides Santina Manfrin tem 68 anos. Crescida entre nove irmãos, ela começou a trabalhar antes mesmo dos 10 anos, na construção da casa que seria de sua família na Linha Nova Brasília, interior de Maravilha. Ainda jovem, Ide, como é conhecida na comunidade do Bairro União, engravidou e casou com um funcionário de seu pai. 
O homem que a fez aprender que as coisas nem sempre são como parecem era alcoólatra e agressivo. Já nos primeiros anos de casada ela trabalhava fora e dentro de casa para sustentar os filhos e os vícios do marido: cigarro, bebida e prostituição. Na época a separação não era uma escolha vista pela comunidade, mesmo assim ela tentou por diversas vezes afastar-se dele. Em uma destas ocasiões, Irides engravidou do terceiro filho, gravidez de risco, e o perdeu dois dias após seu nascimento. O pai nem fez questão de visitá-la no hospital e só compareceu ao velório porque foi obrigado pelos cunhados. 
Registro de uma de suas muitas viagens. Na foto, o destino foi Copacabana, no Rio de Janeiro
Mas o amor da mulher que hoje esbanja felicidade era maior. Entre as idas e vindas do casamento, ela teve mais uma filha, completando a família. Agora era ela, um menino e duas meninas. A situação era de muita necessidade, deixava de comer para dar aos filhos. Os irmãos sempre a ajudavam. Uma delas, que era vizinha na época, esperava o sinal: o pano de prato na janela significava que o marido não estava e então poderia levar comida aos sobrinhos. 
Em um dia de enchente na década de 1980 o seu bebê mais novo, com 40 dias, sofreu um afogamento em meio a tanta água dentro de casa. Os vizinhos ajudaram. Levaram Letícia, de 40 dias, para o hospital da cidade, onde por um milagre ela sobreviveu. Ao chegar em casa e explicar a situação para o marido houve uma briga, ele tentou matar a esposa. Naquele dia Irides teve a certeza de que aquela não precisava ser sua vida. 
Alguns dias depois ele sumiu. Deixou-a com seus três filhos a cargo do destino e ainda penhorou os poucos móveis que existiam dentro da casa alugada para poder fugir do estado. Hoje ela percebe que a melhor coisa que ele fez foi tê-la deixado. A falta de opção a fez morar com sua mãe em um pequeno quarto com as crianças. Trabalhava dia e noite para evitar que os filhos passassem fome mais uma vez. 
Depois de anos ela comprou um terreno, financiou uma casa onde mora até hoje. Agora aposentada, ela ajuda a cuidar dos netos, é ministra da igreja católica da comunidade e visita frequentemente os amigos. Ela diz ter perdoado o passado, mas sabe que tudo que passou teve consequências. Se pudesse mudar algo, teria dado mais carinho aos filhos na infância, teria sido menos dura. “Eu não tinha tempo de dar um colo, conversar. Acabei ficando fechada, sem tempo. Isso eu gostaria de mudar, ter sido mais mãe para eles, só que a situação era difícil e eu precisava trabalhar muito, mas muito mesmo”, lembra. 
Irides aos 17 anos
As dificuldades que passou hoje são aprendizado. Ela diz que poucas mulheres sabem que também passaram pela mesma situação, ignoram o passado e continuam casadas com os agressores. Quando Ide conta sua história, elas se emocionam, sabem que a história se repetia em casa. 
Apesar do sonho de trabalhar com música ter ficado para trás, hoje pede para Deus, seu maior mentor, que a leve o mais tarde possível, quer aproveitar e viver aquilo que não fez. “Ser mulher não é um título fácil. Mas digo para quem está passando por dificuldade que lute. Saiba que tudo tem um motivo e se Deus nos permitiu é porque podemos, vá em frente, seja uma pessoa boa com todos, ajude. Não há sentimento melhor que o amor”, finaliza. 

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Fonte: Jornal O Líder/ Diana Heinz/ Wh Comunicações
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