A mais recente edição do Oscar, realizada neste mês, colocou mais uma vez o cinema brasileiro em destaque no cenário internacional. Mesmo sem conquistar a estatueta, o país reafirmou sua força criativa. O Agente Secreto alcançou quatro indicações, igualando o recorde de Cidade de Deus na edição de 2004.

Foto: Divulgação
O professor e artista de Maravilha Alex Schappo destaca que alcançar reconhecimento em nível mundial funciona como um grande incentivo para que a produção audiovisual continue se fortalecendo, além de reforçar a importância de ampliar as políticas públicas voltadas ao setor. “No fim das contas, penso que a verdadeira vitória do cinema brasileiro não está necessariamente na estatueta, mas no reconhecimento do próprio público. Está no momento em que as pessoas vão ao cinema, se emocionam, se identificam com as histórias e torcem para que cada vez mais produções nacionais possam existir e circular. É nesse encontro entre obra e público que o cinema realmente cumpre sua função cultural”, diz.
Schappo lembra ainda que O Agente Secreto já acumula mais de 70 prêmios internacionais, com destaque para participações em eventos de prestígio, como o Festival de Cannes e o Globo de Ouro. Apesar disso, ele defende a construção de uma cultura em que a qualidade das produções brasileiras não precise necessariamente ser medida pelo reconhecimento de premiações internacionais que, historicamente, pouco contemplaram cinematografias latino-americanas ou obras que fogem de uma estética hollywoodiana.
“Arrisco dizer, inclusive, que o cinema está ocupando um lugar em que antes só o futebol ocupava, no sentido de mobilizar o imaginário coletivo, gerar identificação e projetar o país internacionalmente por meio de seus talentos.”
– Alex Schappo.
DESAFIOS DA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL NO INTERIOR DO PAÍS
O artista enfatiza que há uma desvantagem em estar fora do eixo de produção do cinema, especialmente pela escassez de profissionais, equipamentos e produtoras. Para ele, o primeiro desafio é formar uma equipe que compartilhe o mesmo desejo de produzir, aprender e construir de forma colaborativa, já que muitas vezes cada integrante precisa acumular duas ou mais funções.
Entretanto, ele enxerga potência nesse cenário, ao forçar soluções criativas e permitir que os projetos aconteçam mesmo sem tantos recursos. “Aos poucos, vamos realizando um movimento de perceber como o interior afeta nosso fazer criativo. Utilizando isso como potência, e não limitação, vamos compreendendo como podemos nos inserir nos circuitos de cinema”, reflete.
Schappo também reforça o papel do público nesse contexto, destacando a importância da participação em mostras, festivais e exibições locais como forma de fortalecer o setor. “É uma questão de representatividade, identidade e reconhecimento que somente o nosso povo é capaz de fazer”, conclui.
COMO TUDO COMEÇOU
O interesse pelo cinema acompanha Alex Schappo desde cedo, inicialmente como espectador. As idas à locadora para escolher alguns títulos e passar o fim de semana assistindo marcaram esse primeiro contato com o audiovisual. Na época, ele não imaginava que iria atuar nessa área, sobretudo pela percepção de que se trata de uma linguagem com custos de produção mais elevados em comparação a outras manifestações artísticas.

O Fio de Ariadne (Divulgação)
A aproximação com a prática veio anos depois. Em 2024, Schappo escreveu, dirigiu e atuou na vídeo-poesia Labirinto, seu primeiro projeto no audiovisual. A obra teve origem em um texto iniciado em 2020, durante a pandemia, e concluído em 2022, no período em que cursava o mestrado em Educação. A produção foi viabilizada com recursos da Lei Paulo Gustavo, criada para incentivar o setor cultural em todo o país.
No ano seguinte, por meio da Lei Aldir Blanc, escreveu e dirigiu seu primeiro curta-metragem, O Fio de Ariadne. O filme apresenta um recorte da vida de três personagens cujas existências são atravessadas por um livro, articulando elementos da mitologia grega e da psicanálise. A obra estreou no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM), em setembro de 2025, e, neste ano, foi selecionada para a Mostra de Cinema Chica Pelega, em Videira, com exibição em março.
RECOMENDAÇÕES
O artista lista algumas opções para quem quer explorar o cinema brasileiro:
Central do Brasil (1998)
O Auto da Compadecida (2000)
Cidade de Deus (2002)
Lisbela e o Prisioneiro (2003)
Saneamento Básico, o Filme (2007)
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)
Que Horas Ela Volta? (2015)
As Boas Maneiras (2017)
A Vida Invisível (2019)
Bacurau (2019)
Propriedade (2023)
Ainda Estou Aqui (2024)
Destaque para o cinema catarinense atual:
Violeta (2024), de Bi Naluna
Adelante Professora (2025), de Ana Laura Baldo
A Lua dos Beijos Silentes (2025), de Mika Queiroz
Mascates de Sonhos (2025), de Kristel Kardeal
Pedra Vermelha (2025), Margot Filmes
Virtuosas (2025), de Cíntia Domit Bittar.