
Foto: Camilla Constantin/Líder
Renata Steffen, mãe de Izabela Steffen Staudt, de 6 anos, levou um susto ao receber o diagnóstico da filha, em janeiro do último ano. “O que é doença celíaca?”, questionou. Até então, ela desconhecia que se tratava de uma condição autoimune em que o organismo reage ao glúten, causando danos no intestino e prejudicando a absorção de nutrientes. Esse momento aconteceu em um consultório na capital do estado, após a família passar por um longo processo de consultas, dúvidas e inseguranças.

Renata desenvolveu receitas adaptadas para garantir uma alimentação segura e saborosa para a filha (Foto: Divulgação)
Ela conta que, desde bebê, Izabela já apresentava sinais de que algo não estava bem, como cólicas frequentes. Com o tempo, surgiram problemas intestinais, baixo peso e dificuldade de crescimento. Foram diversas consultas até o encaminhamento para atendimento especializado com gastropediatra, em Florianópolis, onde o diagnóstico foi confirmado. Desde então, a menina segue em acompanhamento regular.
O cuidado exige atenção constante. Segundo Renata, não basta retirar o glúten da alimentação: é preciso evitar também a contaminação cruzada (explicação abaixo). Por isso, a família decidiu eliminar totalmente o glúten de casa, o que resultou em melhora significativa nos exames da filha.
No dia 16 de maio, é lembrado o Dia Mundial de Conscientização da Doença Celíaca. Para a mãe, no entanto, um dos maiores desafios ainda é a aceitação da sociedade. “Dizem que é frescura, que só um pouco não faz mal. Ela precisa levar o próprio lanche para todos os lugares e enfrenta questionamentos. A doença é pouco conhecida, e isso dificulta a compreensão das pessoas”, relata.
Renata conta que a filha gosta de alimentos como pão e bolo, mas tudo precisa ser adaptado. Com o tempo, ela aprendeu novas receitas, utilizando ingredientes como a farinha de arroz. “Existem muitas possibilidades”, afirma. Izabela já entende suas restrições, explica a condição às pessoas e lida com a situação de forma leve. “Ela sabe que não pode comer o lanche dos amigos, mas se alegra com coisas simples, como dividir o dela”, conta a mãe.
“Hoje tenho qualidade de vida”, afirma nutricionista que convive com a doença
A nutricionista Larissa Klein também recebeu o diagnóstico no último ano. “Lembro bem desse momento, foi um misto de sentimentos. Como profissional, eu entendia o que significava, mas, como paciente, é diferente”, relata.

Nutricionista Larissa Klein (CRN 10/12114) destaca a importância de monitorar possíveis deficiências nutricionais, especialmente no início, como ferro, cálcio, vitamina D e vitaminas do complexo B (Foto: Divulgação)
A profissional destaca um aspecto ainda pouco abordado: o impacto social e emocional. Afinal, a comida vai muito além de nutrientes, envolve memória afetiva, convivência e cultura. “De repente, você precisa se afastar de muitas dessas situações ou viver elas de uma forma diferente. Tem o medo da contaminação, de ser um incômodo, a necessidade de explicar o tempo todo, e isso pesa. Mas, com o tempo, esse luto vai se transformando. Você aprende a se adaptar, a criar novas memórias, a encontrar novas formas de viver esses momentos. E, principalmente, aprende a se respeitar. Hoje eu tenho qualidade de vida, me sinto bem, tenho mais energia, mas também tenho um olhar muito mais sensível sobre o quanto a alimentação envolve emoção, história e identidade.”
Sintomas
Os sintomas podem incluir diarreia, inchaço, dor abdominal, vômitos, cansaço, queda de cabelo, dores de cabeça, alterações de humor, entre outros. Sinais de alerta incluem anemia recorrente, deficiência de vitaminas, diarreia crônica, perda de peso sem causa aparente, histórico familiar ou presença de outras doenças autoimunes.
Glúten
Segundo a nutricionista, o glúten está presente em cereais como trigo, cevada e centeio, além de alimentos como pães, massas, bolos, assim como em diversos produtos industrializados. A aveia é naturalmente sem glúten, mas pode sofrer contaminação cruzada durante o transporte e produção. Ela alerta ainda que o glúten pode estar em itens do dia a dia, como cosméticos, produtos de higiene e até medicamentos, dependendo da formulação.
Contaminação cruzada
Ocorre quando alimentos sem glúten entram em contato com superfícies ou utensílios contaminados, como no caso de utilizar a mesma torradeira, por exemplo. De acordo com a nutricionista, o ideal é não ter nada com glúten em casa – mesmo pequenas quantidades podem causar prejuízos à saúde. Porém, quando não for possível, alguns cuidados são essenciais: uso de utensílios exclusivos, armazenamento separado dos alimentos (de preferência nas prateleiras superiores, para evitar contaminação por partículas), higienização adequada de superfícies e mãos, não reutilizar água ou óleo de preparações com glúten, entre outros.
Alimentação
Mesmo com restrições, Larissa enfatiza que é possível manter uma dieta equilibrada, variada e saudável. Alimentos como arroz, milho, mandioca, batata, feijão, lentilha, grão-de-bico, carnes, ovos, frutas, verduras, legumes, entre outros, podem e devem ser consumidos normalmente.
A nutricionista alerta para o consumo excessivo de produtos industrializados sem glúten, algo que geralmente ocorre nas substituições. “Eles são seguros, mas nem sempre saudáveis, podendo conter mais gorduras, açúcares e aditivos”, explica. O ideal é priorizar preparações caseiras. “Farinhas naturalmente sem glúten, como farinha de arroz, de milho, de mandioca ou aveia certificada sem glúten, podem ser utilizadas para preparo de receitas, trazendo mais qualidade nutricional”, complementa.