PÃO DE QUEIJO MARAVILHA - 01/06/2026 08:45 (atualizado em 01/06/2026 09:59)

Projeto de culinária inclusiva incentiva a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho

A atividade faz parte do Programa de Educação Profissional, realizado pela Apae em parceria com instituições e profissionais de diferentes áreas
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Foto: Tamara Finardi

“Nosso maior sonho é sermos aceitos como somos no mercado de trabalho”. 

Este é o posicionamento de seis educandos da APAE de Maravilha, que atualmente são aprendizes no Programa de Educação Profissional (PROEP), iniciativa que visa preparar jovens e adultos com deficiência intelectual, deficiência múltipla e/ou Transtorno do Espectro Autista (TEA) para o mercado de trabalho formal, a partir da perspectiva da inclusão e da independência, valorizando suas potencialidades.

Alan Graeff, Marina Carla Wall,  Monica Maria Vieira, Rodrigo Werli, Victor Gabriel Keller e Gabriele Vitoria Muller Da Silva integram a turma de Pré-Qualificação deste ano do projeto, que, dentre outras atividades, está desenvolvendo a oficina de culinária inclusiva. A equipe da Apae detalha que o direcionamento foi definido após a avaliação junto aos aprendizes, os quais demonstraram interesse em atividades gastronômicas. Outro fator que chamou atenção é o fato de ser uma área com demanda em diferentes setores, como restaurantes, padarias e indústrias. Além disso, caso não seja possível a inserção no mercado de trabalho, o aprendiz poderá se aperfeiçoar para a produção independente.

Foto: Tamara Finardi

Dentro desse escopo, o pão de queijo foi definido como o produto alimentício a ser trabalhado, desde a concepção da receita até a comercialização ao consumidor final, com foco em culinária acessível, boas práticas de higiene e manipulação de alimentos, planejamento de produção, rotulagem, embalagem e venda. 

O curso integra atividades teóricas e práticas, visitas técnicas e participação em feira local, tendo como pilares a autonomia, o trabalho em equipe e noções de empreendedorismo.

Parte das atividades é desenvolvida na cozinha educativa da Apae. Crédito: Tamara Finardi

O trabalho conta com diversas parcerias: as aulas são ministradas por uma instrutora técnica da EPAGRI e por profissionais da Vigilância Sanitária do Município de Maravilha, com apoio da professora da turma e da equipe multiprofissional do CAESP (nutricionista, enfermeiro, psicóloga e assistente social). A turma iniciou as atividades em março deste ano e, em novembro, os aprendizes terão uma formatura, que contará com certificação da EPAGRI e da Vigilância Sanitária.

Sabor, ingredientes selecionados e receita especial

O pão de queijo será comercializado, e a equipe compartilha alguns segredinhos da receita. Foto: Daniela de Castro/Líder/WH Comunicações

É difícil não se render ao cheiro do pão de queijo recém-saído do forno, não é mesmo? Pensando nisso, a turma está trabalhando em uma receita diferenciada para chamar a atenção dos futuros clientes pelo sabor e pela praticidade. 

A Extensionista Social da Epagri, gastrônoma, engenheira de alimentos Bárbara Andrade Mörtl, revela que a receita conta com um queijo produzido na região, batata-doce orgânica e é sem lactose. “Nós pensamos esse produto em equipe, justamente pela facilidade de produção, padronização e repetibilidade”, explica.

Os envolvidos já provaram e aprovaram o sabor, e os aprendizes da turma se preparam não apenas para colocar a mão na massa nas próximas semanas, mas também para se envolver nas atividades estratégicas ligadas à produção, conservação e venda, como, por exemplo, o intuito de disponibilizar o produto congelado.

Foto: Daniela de Castro/Líder/WH Comunicações

A atuação da Vigilância Sanitária, realizada pela equipe do Município de Maravilha, possui um papel educativo, orientando sobre boas práticas de manipulação, higiene, organização do ambiente e cuidados necessários em todas as etapas da produção. “Em um projeto inclusivo, esse acompanhamento também fortalece a autonomia, a responsabilidade e a valorização dos aprendizes, mostrando que eles são plenamente capazes de participar de processos produtivos seguros e de qualidade”, destacam Kely Clen e Patrícia Tumelero, integrantes da equipe da Vigilância Sanitária, que acompanham a organização do projeto.

Durante o mês de maio, os aprendizes visitaram a Chácara Nossa Senhora Aparecida, em Maravilha, onde acompanharam e participaram da colheita de uma das matérias-primas da receita: a batata-doce. A atividade foi encerrada com um piquenique que, é claro, contou com pão de queijo, momentos de descontração e ainda mais entusiasmo dos educandos para iniciar a produção e as vendas.

Pão de Queijo Maravilha
A marca do produto foi criada do zero com os alunos. Crédito: Tamara Finardi

“Eles escolheram a fonte e o mascote. Depois, cada um pintou da sua maneira e fizemos a votação dos que mais gostaram. Com a logo e o mascote pintados, escolhemos o nome também por votação, tudo muito democrático”, explica Bárbara.

Foto: Tamara Finardi

Assim surgiu o Pão de Queijo Maravilha, e o mascote “Pãozin”. A reportagem acompanhou parte desse processo de criatividade, marcado pela empolgação dos aprendizes ao verem os resultados do trabalho coletivo de criação da marca do produto, que também será feito por eles. A marca também estampa os aventais personalizados pela turma.

Atividades multidisciplinares

De forma complementar, os aprendizes participam de atividades de locomoção independente, informática, educação física, fanfarra, música e visitas técnicas a estabelecimentos da área da gastronomia. A equipe da Apae também destaca que, durante o programa, são trabalhadas habilidades sociais, como cooperação e comunicação.

Incentivo e preparação para o mercado de trabalho

A APAE de Maravilha destaca que, nestes 41 anos de existência, o programa de preparação para o mercado de trabalho foi ofertado conforme a existência de público que se enquadrasse e tivesse interesse na iniciativa. O PROEP é executado a partir das diretrizes da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) e do Manual do Programa de Educação Profissional das APAEs.

A equipe da Apae destaca a relevância destas iniciativas. “Faz-se necessário desconstruir todo um processo histórico e social da pessoa com deficiência intelectual e múltipla, que sempre foi vista como ‘incapaz’, sem condições de empregabilidade. Hoje, todo esse processo de inclusão ainda necessita de muita sensibilização e capacitação para compreender que, independentemente da deficiência, há uma pessoa em primeiro lugar, com potencialidades que podem ser estimuladas e treinadas para desempenhar diferentes atividades, desde que haja adaptação e suporte necessários, conforme a demanda da pessoa”.

Além disso, em novembro está previsto um seminário em Maravilha, com o objetivo de aproximar empresas, entidades, famílias e PcDs.

Oportunidade e sucesso

João Maria compartilha seu exemplo de atuação no mercado de trabalho. No seu ponto de vista, mais pessoas deveriam ter essa oportunidade. Foto: Tamara Finardi
João Maria, 29 anos, frequentou as atividades da Apae de Maravilha e, há pouco mais de dois anos, conquistou seu primeiro emprego formal em uma empresa do município. Durante o período na APAE, participou de iniciativas voltadas ao incentivo à inserção no mercado de trabalho. Destaca que também aprendeu sobre as leis trabalhistas e o funcionamento do mercado de trabalho. Sobre o trabalho, reforça que tem sido gratificante. 

Ele ainda destaca a importância de ter o próprio dinheiro, autonomia, construir novas amizades e vivenciar novas experiências. Apesar da rotina corrida no ambiente de trabalho, sempre que chega em casa faz questão de tirar um tempo para tomar um chimarrão com a mãe e o padrasto.

Inclusão laboral

A Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência é um instrumento que impacta diretamente a inclusão. O Art. 93 da Lei nº 8.213/1991 estabelece que a empresa com 100 ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, na seguinte proporção: 

- de 100 a 200 empregados, a reserva legal é de 2%; 

- de 201 a 500, é 3%; 

- de 501 a 1.000, é 4%;

- as empresas com mais de 1.001 empregados devem reservar 5% das vagas para esse grupo.

Dados do MPT-SC, referentes a dezembro de 2025 em Santa Catarina, apontam que a quantidade de pessoas com deficiência contratadas no mercado de trabalho formal totaliza 36.134. A auditora fiscal do MTE-SC, Lucina Carvalho, destaca a importância do arcabouço legal, pois deste total, 94% das contratações ocorreram em empresas abrangidas pela Lei de Cotas

Os dados do período também demonstram a existência de 2.704 estabelecimentos com mais de 100 colaboradores, que resultam em um potencial de contratação de 55.463 PcDs. Com 36 mil pessoas já inseridas no mercado, os números ainda revelam espaço para a contratação de mais de 20 mil trabalhadores PcDs.

Os números também apontam avanços. A auditora compara que, em dezembro de 2014, eram 13.589 contratados, e o estado estava abaixo da média nacional em inclusão. Em dezembro de 2025, Santa Catarina conquistou um índice que se enquadra em 8% acima da média nacional. 

A procuradora do Trabalho, Luciana Teles, que também é coordenadora regional da COORDIGUALDADE no Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina, enfatiza a necessidade de um olhar amplo, onde a contratação da PcD precisa ser precedida de medidas que garantam a plena participação do trabalhador na empresa. “Para isso, a empregadora precisa estar preparada, fornecendo ambiente de trabalho adequado e treinando o seu quadro de pessoal, inclusive realizando mudanças de mentalidade para manter um ambiente de trabalho livre de discriminações e assédios. É preciso que a empresa compreenda que a deficiência está no meio ambiente fornecido e não no trabalhador. Por isso, faz-se necessário que a empregadora tenha compreensão sobre acessibilidade, fornecimento de apoios e tecnologias assistivas, de modo a assegurar a maior autonomia possível ao trabalhador com deficiência”, pontua.

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Fonte: Tamara Finardi/ WH Comunicações/ Líder
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