
Neste mês, marcado pelo Dia Mundial da Obesidade (4), reforçamos a importância da conscientização e cuidado com a saúde – Ilustração: Freepik
A obesidade é um problema crescente no Brasil, associado a diversas doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. Em Maravilha, dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do último ano mostram que mais de 30% dos adultos acompanhados pela rede pública apresentam obesidade. Quando somados aos casos de sobrepeso, esse número ultrapassa 65%.
O SISVAN é um sistema que acompanha o estado nutricional das pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com base em dados como peso e altura coletados durante os atendimentos (não apenas nos serviços de nutrição). Segundo Cristiane Perondi, nutricionista da Atenção Primária à Saúde de Maravilha, os números não representam toda a população, mas refletem uma parcela significativa de moradores que passam pelas unidades de saúde do município.
Fatores que influenciam
A profissional ressalta que a obesidade é um fenômeno complexo, influenciado por diversos fatores, entre eles o sistema alimentar e as mudanças nos hábitos da população. “Estamos perdendo espaço de alimentos tradicionais, como arroz e feijão, e aumentando o consumo de produtos à base de commodities como soja e trigo, que se tornam matéria-prima para ultraprocessados. As pessoas têm menos tempo e acabam optando por produtos prontos, mais práticos. Atividades físicas também exigem disponibilidade na agenda. É o que dizem: ter tempo é o novo luxo.”

Nutricionista é pós-graduada em Atenção à Saúde das Pessoas com Sobrepeso e Obesidade, em Saúde Pública e em Comportamento Alimentar, além de mestre em Ensino na Saúde (Foto: Divulgação)
Outro ponto é o comportamento familiar. “Muitas pessoas que não tiveram acesso adequado à alimentação quando eram crianças agora oferecem aos filhos liberdade total para comer o que querem, sem restrições. Esse hábito é preocupante e contribui para o aumento do sobrepeso”, acrescenta.
Atendimento e prevenção em Maravilha
O município desenvolve ações voltadas à promoção de hábitos mais saudáveis. Entre as iniciativas estão o programa Vida Ativa, oficinas esportivas e culturais, além de espaços públicos como praças e academias ao ar livre, que estimulam a prática regular de atividade física.
Para quem precisa de atendimento nutricional, o acesso é feito por encaminhamento na unidade de saúde, sem lista de espera, com consulta realizada em até um mês. A especialista destaca que o acompanhamento respeita a realidade de cada paciente. “O acompanhamento nutricional precisa ser adaptado à rotina, ao tempo e aos recursos de cada pessoa. Mas, acima de tudo, o exemplo familiar é determinante”, reforça.
Em casos mais complexos, quando necessário, o paciente pode ser encaminhado para cirurgia bariátrica. Atualmente, seis pessoas no município estão nesse processo. “É algo muito válido, que pode ser um salva-vidas”, ressalta.
SISVAN 2025 – Estado nutricional da população adulta em Maravilha
Baixo peso: 1,05% (95 pessoas)
Adequado: 30,02% (2.722)
Sobrepeso: 36,45% (3.305)
Obesidade grau I: 20,83% (1.889)
Obesidade grau II: 7,7% (698)
Obesidade grau III: 3,95% (358)
Total de pessoas acompanhadas: 9.067.
“É importante compreender que cada número representa uma vida, e que políticas públicas, acesso a alimentos saudáveis e educação nutricional são fundamentais para reduzir esses índices”, conclui.
EM BUSCA DE AJUDA
Procurar ajuda para emagrecer nem sempre é algo simples. A obesidade ainda carrega estigma e preconceito, o que faz com que muitas pessoas adiem o início do tratamento. Segundo a médica Bruna Luiza Broetto (CRM-SC 34172), que atua na área de emagrecimento, é importante compreender que a perda de peso não depende apenas de “força de vontade”, mas envolve fatores hormonais, metabólicos e comportamentais.

Médica enfatiza que o tratamento, quando conduzido de forma adequada, devolve qualidade de vida, autoestima e saúde (Foto: Divulgação)
Nos últimos anos, o aumento da popularidade de medicamentos e métodos de emagrecimento, como as famosas “canetas”, trouxe dúvidas sobre eficácia e segurança. Na sequência, a profissional explica quando esses tratamentos são indicados e ressalta a importância de acompanhamento profissional.
Líder: Quais sinais podem indicar que o excesso de peso já está trazendo riscos à saúde e que é hora de procurar ajuda médica?
Bruna Luiza Broetto: O excesso de peso começa a se tornar um problema de saúde quando ele deixa de ser apenas uma questão estética e passa a impactar o funcionamento do organismo e a qualidade de vida.
Alguns sinais importantes incluem: cansaço excessivo, falta de ar aos esforços, dores articulares, dificuldade para realizar atividades do dia a dia, aumento da circunferência abdominal e alterações em exames laboratoriais, como glicemia, colesterol e enzimas hepáticas. Além disso, sintomas como fome exagerada, compulsão alimentar e dificuldade persistente em emagrecer, mesmo tentando dieta, também indicam que há um desequilíbrio metabólico.
Nesses casos, é fundamental procurar ajuda médica, porque a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, e quanto antes for tratada, melhores são os resultados.
Líder: Quando um paciente procura ajuda para emagrecer, quais costumam ser os primeiros passos do tratamento?
Bruna Luiza Broetto: O primeiro passo é entender que cada paciente é único e precisa de uma abordagem que faça sentido para ele.
A consulta inicial envolve uma avaliação completa: histórico clínico, hábitos alimentares, rotina, sono, nível de atividade física, composição corporal e, muitas vezes, exames laboratoriais.
A partir disso, estruturamos um plano individualizado, que inclui ajuste alimentar, estratégia comportamental, orientação de atividade física e, quando necessário, suporte medicamentoso.
O mais importante não é apenas promover perda de peso, mas tratar a causa do ganho de peso e garantir que o paciente consiga sustentar os resultados no longo prazo.
Líder: As chamadas canetas emagrecedoras têm ganhado cada vez mais popularidade. O que são esses medicamentos e como eles agem no organismo?
Bruna Luiza Broetto: As chamadas “canetas emagrecedoras” são medicamentos injetáveis que atuam em hormônios intestinais relacionados à saciedade, como o GLP-1 e, em alguns casos, também o GIP.
Eles agem reduzindo a fome, aumentando a sensação de saciedade e retardando o esvaziamento gástrico. Além disso, ajudam a melhorar o controle da glicose e a resposta metabólica do organismo.
Na prática, o paciente passa a comer menos, com mais controle, e isso facilita o processo de emagrecimento. Mas é importante reforçar: não são medicamentos “milagrosos”. Eles são ferramentas dentro de um tratamento estruturado.
Líder: Em quais situações esse tipo de medicação é realmente indicado?
Bruna Luiza Broetto: Essas medicações são indicadas principalmente para pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, como diabetes, hipertensão, dislipidemia ou esteatose hepática. Também são muito úteis em pacientes que apresentam fome excessiva, compulsão alimentar ou grande dificuldade em manter resultados apenas com dieta e exercício.
A indicação deve sempre ser individualizada, levando em conta o perfil clínico, histórico e objetivos do paciente. O uso correto, com acompanhamento médico, pode trazer benefícios importantes não só no peso, mas na saúde como um todo.
Líder: Quais são os riscos do uso dessas medicações sem acompanhamento médico?
Bruna Luiza Broetto: O uso sem orientação médica pode trazer riscos importantes. Entre eles estão efeitos colaterais mal manejados, uso de doses inadequadas, contraindicações não avaliadas e, principalmente, frustração com o tratamento por falta de acompanhamento adequado.
Além disso, sem uma mudança de estilo de vida associada, há grande risco de reganho de peso após a suspensão da medicação. Outro ponto preocupante é o uso indiscriminado por pessoas que não têm indicação, motivadas apenas por estética, o que pode trazer mais riscos do que benefícios.
Por isso, o acompanhamento médico é essencial para garantir segurança, eficácia e resultados duradouros.