O El Niño previsto para os próximos meses pode se tornar um dos fenômenos mais intensos das últimas décadas, segundo projeções de cientistas. Na América Latina, o evento deve aumentar o risco de secas, enchentes e ondas de calor, enquanto Santa Catarina pode enfrentar períodos de chuva intensa, temporais e outros eventos extremos.
De acordo com o último relatório do Centro de Previsões Climáticas (CPC), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe 81% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
O professor Ángel Adames, do Departamento de Ciências Atmosféricas e Oceânicas da Universidade de Wisconsin-Madison, avalia que o fenômeno pode estar entre os eventos mais significativos registrados desde o início das medições, na década de 1950. Segundo ele, os impactos devem continuar em 2027, com possibilidade de que os efeitos mais severos ocorram no próximo ano.
Santa Catarina pode ter chuva intensa e temporais
Santa Catarina está em uma área de transição entre massas de ar frio vindas do Sul e o ar quente e úmido de origem tropical. Essa característica favorece a ocorrência de frentes frias, ciclones extratropicais e tempestades.
Durante a atuação do El Niño, o Sul do Brasil tende a registrar chuvas acima da média, principalmente durante a primavera e o verão. Em Santa Catarina, isso pode aumentar a possibilidade de temporais, ventos fortes, granizo, alagamentos e outros eventos extremos.
A Defesa Civil prevê que o auge do fenômeno ocorra entre novembro, dezembro e janeiro. As projeções apresentadas em maio apontavam mais de 30% de possibilidade de formação de um chamado “super El Niño” ou de um evento classificado como forte ou muito forte no Estado.
Apesar do cenário de atenção, especialistas destacam que a intensidade definitiva do fenômeno ainda será acompanhada ao longo dos próximos meses.
Por que o El Niño acontece?
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Uma das alterações importantes ocorre quando os ventos alísios, que normalmente empurram águas quentes em direção à Indonésia e à Austrália, perdem força.
Com isso, a água quente se desloca novamente para o centro e o leste do Pacífico, próximo à costa da América do Sul. O aquecimento modifica a circulação atmosférica e influencia os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
Um dos fatores que pode contribuir para um evento mais intenso é o rápido aquecimento das águas do oceano e a redução da ressurgência de água fria na costa do Peru e do Equador.
Impactos podem ser diferentes conforme a região
Na América Latina, os efeitos do El Niño não serão iguais em todas as áreas.
No Peru e no Equador, a possibilidade de chuvas torrenciais, enchentes e deslizamentos aumenta. A elevação da temperatura do oceano também pode prejudicar a pesca.
Partes do Peru e da Bolívia podem enfrentar períodos de seca, assim como áreas da Colômbia, Venezuela e Norte do Brasil. A redução da vazão dos rios também pode afetar a geração de energia hidrelétrica.
Já no Sul do Brasil, Uruguai, Paraguai, norte da Argentina e Chile, a tendência é de chuvas mais frequentes e intensas.
Embora a precipitação possa beneficiar a agricultura, o excesso de chuva também aumenta o risco de inundações.
Fenômeno pode ter efeitos até 2027
Os impactos do El Niño não devem ficar restritos a 2026. Segundo os especialistas citados no levantamento, o fenômeno pode continuar influenciando o clima ao longo de 2027.
Para Santa Catarina, o período de maior atenção deve ocorrer durante a primavera e o verão, quando o Estado historicamente apresenta maior frequência de episódios de chuva intensa e temporais.
O meteorologista Caio Guerra, da Defesa Civil, considera o cenário atual preocupante, especialmente diante da possibilidade de um evento forte ou muito forte. No entanto, a ocorrência de desastres específicos não pode ser prevista com antecedência.
O monitoramento das condições atmosféricas e oceânicas deve continuar nos próximos meses para determinar a intensidade do El Niño e seus possíveis impactos sobre Santa Catarina.

