
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta quinta-feira (13), a Operação “Criptoabate”, contra uma organização criminosa suspeita de aplicar golpes por meio de falsas plataformas de investimentos e lavar dinheiro utilizando empresas, contas bancárias e criptoativos.
Ao todo, estão sendo cumpridos 10 mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
A Justiça também determinou medidas cautelares contra outros oito investigados, incluindo restrições de contato e deslocamento, recolhimento domiciliar, suspensão de atividades econômicas e financeiras e proibição de operações bancárias ou com criptoativos.
Golpe teria causado prejuízo milionário
A investigação começou depois que uma vítima procurou a Polícia Civil e relatou ter sofrido um prejuízo superior a R$ 37 milhões em uma suposta plataforma de investimentos.
Segundo os investigadores, o esquema apresentava características do chamado “pig butchering”, conhecido no Brasil como “golpe do abate de porcos”. Nesse tipo de fraude, os criminosos estabelecem uma relação de confiança com as vítimas antes de convencê-las a realizar investimentos cada vez maiores.
As vítimas eram inseridas em grupos de mensagens que aparentavam ser comunidades legítimas de investidores. Nos grupos, supostos especialistas e outros participantes, de maneira coordenada, apresentavam análises de mercado, orientações financeiras e resultados fictícios de investimentos.
Quando a vítima tentava retirar o dinheiro, o saque era bloqueado. Em seguida, os criminosos exigiam novos pagamentos, apresentados como taxas, impostos ou valores necessários para liberar os recursos.
A investigação identificou pelo menos 140 possíveis vítimas relacionadas aos ambientes digitais utilizados pelo grupo.
Dinheiro era movimentado por empresas e convertido em criptomoedas
De acordo com a Polícia Civil, a organização possuía diferentes núcleos de atuação. Havia integrantes responsáveis pela captação das vítimas, abertura e disponibilização de contas bancárias, movimentação dos valores, intermediação financeira e conversão do dinheiro em criptoativos.
Os investigadores também identificaram pessoas suspeitas de atuar como “laranjas”, fornecendo documentos e dados para abertura de empresas e contas bancárias. Depois, o controle dessas estruturas poderia ser assumido por integrantes da organização criminosa.
Parte dos recursos era transferida rapidamente entre diferentes empresas e intermediadores financeiros, dificultando o rastreamento.
Em alguns casos, o dinheiro era convertido em USDT, uma criptomoeda pareada ao dólar. Em um dos fluxos analisados, cerca de 675 mil unidades de USDT foram convertidas em apenas três dias e posteriormente transferidas entre diferentes carteiras e plataformas.
Investigação aponta mais de R$ 30 bilhões em movimentações atípicas
A Polícia Civil identificou empresas com movimentações financeiras incompatíveis com o patrimônio, faturamento e atividade econômica declarados.
Uma das estruturas investigadas, relacionada à intermediação de ativos virtuais, teria movimentado aproximadamente R$ 295 milhões em apenas um dia.
No conjunto de pessoas e empresas analisadas, foram identificadas movimentações consideradas atípicas superiores a R$ 30 bilhões.
A Polícia Civil ressalta, entretanto, que esse valor não corresponde ao prejuízo das vítimas e não significa que todo o montante seja proveniente de atividades criminosas. Trata-se do volume total de operações consideradas atípicas no universo analisado pela investigação.
Entre os indícios estão empresas recém-criadas movimentando grandes quantias, rápida entrada e saída de dinheiro, fracionamento de operações e circulação de recursos entre empresas relacionadas.
Investigação também apura possível participação ligada ao sistema financeiro
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a concentração dos recursos em uma mesma instituição financeira.
Dos 25 primeiros destinatários empresariais que receberam valores da principal vítima, 24 possuíam contas na mesma instituição.
A Polícia Civil também identificou indícios de que integrantes do grupo buscavam auxílio para aprovação, análise ou desbloqueio de contas. A possível participação de pessoas com acesso ao sistema bancário ainda é investigada.
Polícia alerta para golpes com investimentos
A Polícia Civil orienta que os consumidores desconfiem de promessas de rentabilidade muito acima do mercado, grupos de investimentos administrados por desconhecidos e plataformas financeiras sem credenciais verificáveis.
Outro importante sinal de alerta ocorre quando a pessoa tenta sacar o dinheiro investido e é informada de que precisa realizar um novo depósito para liberar os valores.
Cobranças apresentadas como taxas, impostos ou garantias para liberar um investimento supostamente bloqueado devem ser consideradas um forte indício de golpe.
A investigação segue para identificar todos os envolvidos e esclarecer a extensão do esquema.

