
O Brasil pode registrar pelo menos seis ondas de calor até dezembro de 2026, segundo uma análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A projeção leva em consideração o histórico das temperaturas durante períodos de El Niño e indica que o número de episódios pode ser ainda maior.
O cenário chama atenção diante da possibilidade de intensificação do El Niño, condição que pode contribuir para temperaturas elevadas, períodos de estiagem e maior risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis.
Estudo analisou 47 anos de temperaturas
A estimativa do Cemaden foi elaborada a partir da análise de 47 anos de registros de temperatura durante períodos de El Niño. A partir desses dados, a média projetada é de seis ondas de calor até o final de 2026.
A pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em Ciências do Sistema Terrestre e especialista em ondas de calor do Cemaden, ressalta que a quantidade efetivamente registrada pode superar essa média.
Como comparação, entre agosto e dezembro de 2023 e 2024, o país chegou a registrar nove ondas de calor, maior quantidade observada desde o início da série histórica, em 1979. O número foi mais que o dobro da média geral, de quatro episódios.
Temperaturas podem ficar até 3°C acima da média
As projeções para setembro indicam temperaturas acima da média em grande parte do Brasil. Em determinadas regiões, os modelos meteorológicos apontam possibilidade de temperaturas até 3°C superiores aos valores considerados normais para o período.
Segundo o pesquisador Marcelo Seluchi, especialista em Ciências Meteorológicas, os primeiros efeitos do El Niño podem ser percebidos ainda em setembro, com calor intenso no Centro-Sul e aumento das chuvas na Região Sul.
O aquecimento dos oceanos também é apontado como um fator capaz de contribuir para episódios de calor mais frequentes e prolongados.
Mais de 500 municípios estão em alerta para incêndios
Além dos efeitos sobre as temperaturas, a combinação entre calor e baixa umidade aumenta a preocupação com os incêndios florestais.
Um levantamento conjunto do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) identificou 560 municípios em nível de alerta alto para fogo.
As áreas abrangem mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, equivalentes a mais de 35% do território brasileiro. A faixa entre a Amazônia e o Pantanal aparece entre as regiões consideradas mais vulneráveis.
Calor extremo também traz impactos à saúde
Períodos prolongados de temperaturas elevadas podem aumentar a pressão sobre os serviços de saúde, sistema elétrico e recursos hídricos.
O calor também pode afetar a produção, o transporte e a conservação de alimentos. Produtos in natura, incluindo carnes e hortaliças, estão entre os mais vulneráveis aos impactos associados às temperaturas elevadas.
Ainda não é possível determinar se o El Niño de 2026 terá intensidade semelhante à observada em episódios anteriores. Especialistas destacam, porém, que o fenômeno ocorre atualmente sob temperaturas globais mais elevadas, o que pode potencializar alguns de seus efeitos.
Ondas de calor estão mais frequentes
A análise do Cemaden também indica uma mudança no comportamento das ondas de calor no país nas últimas décadas.
Durante os anos 1980 e 1990, esses eventos eram menos frequentes e mais concentrados em determinadas regiões. A partir de 2010, especialmente depois de 2020, passaram a ocorrer com maior frequência e abrangência territorial.
Segundo os especialistas, o aumento da temperatura média do planeta provocado pelas mudanças climáticas cria condições para que determinados padrões atmosféricos resultem em episódios de calor mais intensos, prolongados e abrangentes.
O que caracteriza uma onda de calor?
Uma onda de calor não é caracterizada apenas por um dia muito quente. Para a ocorrência do fenômeno, temperaturas máximas e mínimas precisam permanecer excepcionalmente acima da média durante pelo menos três dias consecutivos.
Entre os fatores que podem favorecer esses episódios está a permanência de sistemas de alta pressão sobre uma mesma região durante vários dias. Essa condição dificulta a formação de nuvens e a ocorrência de chuva, mantendo uma massa de ar quente e seco sobre a área afetada.

