Supremo - 12/02/2026 22:43 (atualizado em 12/02/2026 23:44)

Toffoli deixa relatoria do caso Banco Master no STF

Decisão acontece após a Polícia Federal encontrar menções ao magistrado no celular de Daniel Vorcaro, dono na instituição financeira investigada
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Relatoria do ministro Dias Toffoli estava sendo criticada. Rosinei Coutinho / STF

O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta-feira (12). A decisão foi divulgada após reunião dos ministros da Corte, convocada pelo presidente Edson Fachin. 

A saída de Toffoli da relatoria ocorre um dia depois da divulgação de que a Polícia Federal encontrou menções ao magistrado no celular de Daniel Vorcaro, dono na instituição financeira investigada. 

Em nota, o STF afirmou que o ministro — "considerados os altos interesses institucionais" — pediu que o tema fosse redistribuído para outro magistrado relatar o caso (leia a nota na íntegra abaixo). O novo relator será conhecido ainda nesta quinta-feira.

O documento é assinado pelos outros 10 ministros da Corte que demonstram apoio pessoal ao ministro Dias Toffoli e defenderam as ações do magistrado, declarando "não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição".

Nota do oficial dos 10 ministros do STF

"Os dez Ministros do Supremo Tribunal Federal, reunidos em 12 de fevereiro de 2026, considerando o contido no processo de número 244 AS, declaram não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição, em virtude do disposto no art. 107 do Código de Processo Penal e no art. 280 do Regimento Interno do STF.

Reconhecem, assim, a plena validade dos atos praticados pelo Ministro Dias Toffoli na relatoria da Reclamação n. 88.121 e de todos os processos a ela vinculados por dependência.

Expressam, neste ato, apoio pessoal ao Exmo. Min. Dias Toffoli, respeitando a dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento. Anote-se que Sua Excelência atendeu a todos os pedidos formulados pela PF e PGR.

Registram, ainda, que a pedido do Ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos (RISTF, art. 21, III) e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os Ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua Relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição.

A Presidência adotará as providências processuais necessárias, para a extinção da AS e para remessa dos autos ao novo Relator.

Assinam:

Luiz Edson Fachin, Presidente
Alexandre de Moraes, Vice-Presidente
Gilmar Mendes
Cármen Lúcia
Dias Toffoli
Luiz Fux
André Mendonça
Nunes Marques
Cristiano Zanin
Flávio Dino"

Menções a Toffoli no celular de Vorcaro

O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, pediu a suspeição do ministro e relator Dias Toffoli após encontrar menções ao magistrado no celular de Daniel Vorcaro.

Por conta do novo achado a partir de perícias nos aparelhos de Vorcaro, a direção da PF optou por entregar um relatório ao presidente do Supremo, Edson Fachin, na última segunda-feira (9).

Em nota, divulgada na quarta-feira (11), o gabinete do ministro Toffoli disse que o pedido de suspeição é embasado em "ilações" e que a PF não tem legitimidade para pedir afastamento do magistrado.

"O gabinete do Ministro Dias Toffoli esclarece que o pedido de declaração de suspeição apresentado pela Polícia Federal trata de ilações. Juridicamente, a instituição não tem legitimidade para o pedido, por não ser parte no processo, nos termos do artigo 145, do Código de Processo Civil. Quanto ao conteúdo do pedido, a resposta será apresentada pelo Ministro ao Presidente da Corte", diz texto encaminhado pelo gabinete de Toffoli.

Como então relator, Toffoli deveria ser o destinatário de novas informações sobre as investigações. Todavia, como ele mesmo está citado, a PF repassou o material para Fachin avaliar que medida deve ser adotada.

Negócios com parentes do ministro

José Carlos e José Eugênio, irmãos do ministro do STF, cederam uma fatia milionária no resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná, a um fundo da Reag Investimentos, investigada por abrigar teias de fundos ligados ao Banco Master e suspeitos de sonegação bilionária no mercado de combustíveis.

José Carlos Dias Toffoli é padre na cidade de Marília, reduto do ministro, e José Eugênio é engenheiro e chegou a prestar serviços para a Queiroz Galvão, empreiteira envolvida na Operação Lava Jato, entre 2008 e 2015. Ele não foi denunciado na operação.

Documentos da Junta Comercial do Paraná mostram que a fatia dos irmãos chegou a ser de R$ 1,37 milhão na Tayayá Administração e de outros R$ 5,4 milhões na DGEP Empreendimentos.

Os dois aparecem como sócios na Maridt Participações, que detinha parte do resort no interior do Paraná. Como revelou o Estadão, o endereço da sede da empresa é uma casa de 130 metros quadrados no bairro Jardim Universitário, em Marília, interior de São Paulo.

O local é a residência de José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro que aparece como diretor-presidente da empresa. O imóvel tem sinais de deterioração. A pintura da fachada está rachada em alguns pontos e os pisos da garagem e da calçada estão quebrados.

Cássia Pires Toffoli, esposa de José Eugênio, disse que nunca soube que sua casa foi a sede da Maridt e que não tem conhecimento de qualquer ligação do marido com o resort.

— Moço, dá uma olhada na minha casa. Você está vendo a situação da minha casa? Eu não tenho nem dinheiro para arrumar as coisas da minha casa! Se você entrar dentro, vai ficar assustado. O que está lá (na Junta Comercial), eu não sei. Eu sei que moro aqui há 24 anos e não sei de nada que é sede (da Maridt) aqui. Aqui é onde eu moro —acrescentou.

Colapso do Master

Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master cresceu rapidamente ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com rentabilidade muito acima da média do mercado.

Para sustentar o modelo, o banco passou a assumir riscos excessivos e a estruturar operações que inflavam artificialmente seu balanço, enquanto a liquidez real (dinheiro imediatamente disponível para ressarcir os investidores) se deteriorava.


As investigações da Polícia Federal e os relatórios do BC apontam que o colapso do Master não foi apenas financeiro, mas também institucional.

A conexão com a gestora Reag Investimentos, a tentativa de venda ao Banco de Brasília (BRB) e a pressão sobre órgãos de controle transformaram o caso em um xadrez complexo, com impacto direto sobre investidores e sobre a credibilidade das instituições.

Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações. O banco emprestava recursos a empresas supostamente laranja que aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag Investimentos.

Esses fundos compravam ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflados. O Banco Central, então, identificou seis fundos da Reag suspeitos, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões — dinheiro que circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários, até chegar aos beneficiários finais.

Em novembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro e outros acusados foram alvo da Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF para investigar a concessão de créditos falsos pelo Banco Master, incluindo a tentativa de compra da instituição financeira pelo Banco Regional de Brasília (BRB), banco público ligado ao governo do Distrito Federal. De acordo com as investigações, as fraudes podem chegar a R$ 17 bilhões.

O banqueiro Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do Brasil em novembro de 2025; ele foi libertado 10 dias depois e é monitorado por tornozeleira eletrônica.

Fonte: Gaúcha ZH
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