
Um exemplo de determinação é o da maravilhense Solange Jiulkowski, de 46 anos. Ela conviveu com o vício por 30 anos e chegou a consumir até quatro carteiras de cigarro por dia. Quando decidiu mudar de vida, entendeu que precisaria de ajuda para enfrentar a dependência, e procurou o grupo de apoio do município: “Lá no grupo também me conscientizei dos males que o cigarro causa para a saúde. Só de diminuir o consumo eu já percebi muitas melhorias. Foi uma mudança de hábitos muito grande. Na correria do dia, chegava um determinado horário em que eu queria ficar apenas eu e o cigarro. Então comecei a fazer caminhadas, por exemplo”, relata.
O processo para deixar o cigarro durou cerca de oito meses. Solange participou de um ciclo do grupo de apoio em 2025, reduziu significativamente o consumo e continuou recebendo acompanhamento dos profissionais de saúde. Neste ano, ingressou em um novo grupo e conseguiu abandonar definitivamente o cigarro.
Ela destaca que sempre foi sincera sobre as dificuldades enfrentadas, o que contribuiu para receber orientações adequadas à sua realidade. “Tem que ter determinação e procurar ajuda. Eu não via dessa maneira, mas o cigarro é uma dependência química”, afirma.
A nutricionista Cristiane Perondi, coordenadora dos grupos de combate ao tabagismo em Maravilha, explica que neste momento os grupos são realizados a cada dois meses. Para participar, os interessados podem se inscrever na unidade de saúde de referência ou por meio dos agentes comunitários de saúde.
O trabalho segue os protocolos do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e conta com uma equipe multidisciplinar formada por nutricionista, médico, psicóloga, enfermeira e assistente social. As pessoas participantes dos grupos de apoios participam de um número específico de encontros, divididos em sessões. Segundo a coordenadora, um novo grupo está com atividades previstas para iniciar em 8 de junho, e ainda há vagas para interessados.
Além disso, uma vez ao mês são ofertados encontros de grupos de manutenção, onde as pessoas podem participar ao longo do ano.
“Pelos relatos dos participantes, observamos que as pessoas só percebem benefícios ao parar de fumar. É um vício muito difícil de abandonar, porque a dependência da nicotina é bastante forte. Com o apoio medicamentoso e o suporte do grupo, esse processo se torna mais fácil”, explica Cristiane.
Tratamento gratuito pelo SUS
O médico Dr. Carlos Luiz Nonnemacher Filho, integrante da equipe do Grupo de Combate ao Tabagismo, ressalta que o tratamento para parar de fumar é gratuito e está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), independentemente da participação nos grupos.
“Qualquer pessoa que deseja parar de fumar pode procurar sua unidade de saúde e informar esse interesse. São realizados testes para avaliar o grau de dependência do paciente e, a partir disso, definimos o tratamento mais adequado. Existem abordagens não farmacológicas e também tratamentos com medicamentos”, explica.
O tabagismo é reconhecido como uma doença crônica causada pela dependência da nicotina. De acordo com o INCA, o tabagismo constitui fator de risco para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, além de estar associado a outras doenças crônicas não transmissíveis. Também é um importante fator de risco para o desenvolvimento de enfermidades como tuberculose, infecções respiratórias, úlcera gastrintestinal, impotência sexual, infertilidade em mulheres e homens, osteoporose e catarata, entre outras.
Sobre a importância dos grupos de apoio, o Dr. Carlos Luiz destaca que o diferencial está na troca de experiências entre pessoas que enfrentam a mesma dificuldade. “Os grupos ajudam especialmente aqueles pacientes que têm mais dificuldade para enfrentar a dependência. Além das orientações profissionais, existe o benefício de conviver com pessoas que estão passando pela mesma situação e possuem o mesmo objetivo”, afirma.
Uma nova vida sem cigarro
Após abandonar o vício, Solange percebe melhorias em diversos aspectos da vida. “A respiração melhora. A aparência melhora. O cheiro melhora também. Hoje as pessoas me perguntam qual perfume eu uso. É o mesmo de muitos anos atrás, mas ninguém comentava porque o cheiro do cigarro dominava”, conta.
Cenário ainda preocupa
Apesar dos avanços nas campanhas de conscientização e políticas públicas implementadas nas últimas décadas, o tabagismo continua sendo um grande problema de saúde pública do mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano. Mais de 7 milhões dessas mortes resultam do uso direto desse produto, enquanto cerca de 1,2 milhão é o resultado de não-fumantes expostos ao fumo passivo..
Outro dado preocupante envolve o público jovem. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) revelou que 18,5% dos estudantes entre 13 e 17 anos já experimentaram cigarro pelo menos uma vez.
“A gente tem percebido um grande aumento, principalmente no uso dos cigarros eletrônicos, que acabam atraindo um novo público consumidor para a indústria do tabaco”, alerta a nutricionista Cristiane. Ela destaca que planeja desenvolver ações voltadas aos jovens, em parceria com as escolas do município.

