

Um relatório elaborado pela Unidade Operacional da Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Guaraciaba trouxe novos questionamentos sobre a qualidade e as condições de segurança das obras de recuperação realizadas recentemente nas BRs 163 e 282, no Extremo Oeste de Santa Catarina.
O documento, obtido com exclusividade pelo jornalismo do Grupo WH Comunicações, relata deficiência na sinalização horizontal, ausência de dispositivos refletivos, baixa visibilidade noturna e surgimento de buracos em trechos que passaram por recapeamento há poucas semanas ou meses.
Os apontamentos envolvem dois dos principais corredores rodoviários da região: o trecho da BR-163 entre a Unidade Operacional da PRF na Linha Caravaggio, em Guaraciaba, e o entroncamento com a BR-282 em São Miguel do Oeste, além da BR-282 entre o acesso ao município de São Miguel do Oeste e a ponte sobre o Rio das Antas, em Descanso.

Segundo o relatório encaminhado internamente pela corporação, após manifestação anterior da PRF, a empresa responsável pelas obras implantou sinalização horizontal provisória nos segmentos em obras, realizando pintura das faixas centrais e laterais da pista.
A medida foi considerada importante para melhorar a orientação dos motoristas durante a execução dos serviços e reduzir riscos no trânsito.
No entanto, semanas após a conclusão dos trabalhos, uma nova inspeção constatou que a sinalização implantada apresenta desempenho considerado insuficiente.

De acordo com o documento, especialmente durante a noite e em períodos de chuva, a pintura apresenta baixa retrorrefletividade — característica responsável por permitir que a sinalização seja percebida pelos motoristas com auxílio dos faróis.
Além disso, a PRF destaca a ausência de tachas refletivas em diversos segmentos — equipamentos auxiliares instalados sobre a pista para reforçar visualmente o traçado da rodovia e a divisão entre os fluxos de circulação.
Ponte recém-pavimentada já apresenta buracos
Entre os pontos considerados mais críticos está o trecho da BR-282 entre o trevo de São Miguel do Oeste e a ponte sobre o Rio das Antas.

Segundo o relatório, a sinalização horizontal no local encontra-se extremamente desgastada ou inexistente, inclusive em áreas recentemente restauradas.
Registros fotográficos anexados ao expediente mostram que a ponte sobre o Rio das Antas, cujo pavimento foi executado há poucas semanas, já apresenta pelo menos dois buracos de grandes proporções.
Conforme o documento, além dos danos observados no asfalto, não existe sinalização horizontal provisória ou definitiva sobre a estrutura.
Outro registro anexado pela PRF, gravado durante o período noturno sob chuva, demonstra que em determinados pontos da BR-282 a sinalização praticamente desaparece da visão dos condutores.

Para a corporação, essa condição compromete diretamente a orientação visual da pista e amplia o risco de invasão da faixa contrária e ocorrência de acidentes.
A preocupação se torna ainda maior diante das condições climáticas comuns na região, marcada por frequentes episódios de neblina intensa durante parte significativa do ano.
BR-163 apresenta defeitos poucos dias após conclusão das obras
O relatório também aponta manifestações patológicas no pavimento da BR-163.

Durante inspeção realizada no dia 29 de junho de 2026, no trecho entre os quilômetros 79 e 81 — entre a UOP da PRF em Guaraciaba e o trevo de acesso ao município de Barra Bonita — foram identificados diversos pontos com abertura de buracos.
Segundo levantamento preliminar descrito no documento, foram contabilizadas ao menos 18 ocorrências ao longo de aproximadamente dois quilômetros.
A PRF observa que o segmento havia sido recapeado entre os meses de abril e junho deste ano.
Meses de “pare e siga”, filas e acidentes durante as obras

Outro ponto destacado no expediente é o impacto causado pelas intervenções na rotina da população regional.
Conforme o documento, a execução das obras exigiu meses de operação em sistema “pare e siga”, provocando formação de filas quilométricas e atrasos significativos para usuários das rodovias.
Durante esse período, a Unidade Operacional registrou sinistros de trânsito relacionados às condições operacionais impostas pelas obras, especialmente em razão das retenções e alterações no fluxo.
O relatório destaca preocupação com o fato de trechos recentemente restaurados já apresentarem necessidade de novas intervenções, situação que pode prolongar os impactos na mobilidade regional, gerar novos períodos de restrições e aumentar custos operacionais.
PRF pede providências e sugere acompanhamento permanente
Embora ressalte que avaliar tecnicamente a qualidade da obra não seja atribuição da corporação, a PRF afirma que os fatos observados justificam verificação por parte do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e da empresa executora.
No documento, a corporação solicita que sejam adotadas medidas para implantação, recomposição e manutenção da sinalização horizontal utilizando materiais que atendam aos requisitos técnicos de retrorrefletividade e durabilidade previstos em norma.
Também pede avaliação sobre implantação de tachas refletivas nos segmentos onde o uso seja tecnicamente indicado ou, caso não sejam instaladas, apresentação de justificativas técnicas.
Por fim, a PRF recomenda que o caso permaneça sob monitoramento da Delegacia responsável, com novas inspeções periódicas para verificar o cumprimento das medidas eventualmente adotadas.
O relatório ainda menciona que, caso os fatores de risco persistam ou não sejam apresentadas soluções consideradas adequadas, poderá haver avaliação de medidas institucionais adicionais, inclusive eventual atuação conjunta com o Ministério Público Federal.
A reportagem procurou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em Santa Catarina e também o Ministério Público Federal. Até a publicação desta matéria, os órgãos não haviam se manifestado sobre o conteúdo do relatório ou os questionamentos encaminhados.

