Um estudo conduzido por pesquisadores da França e dos Estados Unidos revelou que o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, é capaz de aprender a partir de experiências anteriores e modificar seu comportamento. Em condições de laboratório, os insetos passaram a tolerar o contato com repelente após associarem o cheiro do produto à alimentação.
A pesquisa foi publicada em maio na revista científica Journal of Experimental Biology e investigou se insetos transmissores de doenças conseguem aprender e memorizar informações. Resultados semelhantes já haviam sido observados em outros estudos com mosquitos e percevejos vetores da doença de Chagas, indicando que experiências prévias podem alterar o comportamento desses insetos.
Em entrevista à Rádio França Internacional, o entomólogo Claudio Lazzari, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), explicou que os experimentos foram realizados com fêmeas do Aedes aegypti utilizando o DEET (N,N-dietil-3-metilbenzamida), um dos repelentes mais usados e considerados mais eficazes no mundo, desenvolvido na década de 1940.
Como o mosquito foi “treinado”
Para testar a capacidade de aprendizado, os cientistas aplicaram um método clássico da psicologia experimental baseado na associação entre estímulos. Inicialmente, os mosquitos recebiam alimento e, logo em seguida, eram expostos ao cheiro do repelente. Após a repetição do processo, os insetos passaram a associar o odor do produto à alimentação.“Os mosquitos estavam tão estimulados a se alimentar que aceitaram o repelente sem escapar. Para eles, a comida e o cheiro do repelente eram percebidos ao mesmo tempo”, explicou Lazzari. Segundo o pesquisador, o resultado foi o mesmo tanto com sangue quanto com açúcar, já que os mosquitos se alimentam de néctar e de sangue.
Durante os testes, cada fêmea era colocada em um tubo isolado. O alimento era oferecido por meio de uma membrana que simulava a pele humana. Após quatro picadas, o repelente era aplicado por dez segundos, com intervalos de cinco minutos. A equipe também mediu a quantidade de alimento ingerida, relacionando tempo de alimentação e volume consumido.
O que os cientistas observaram
Cerca de 30 mosquitos participaram do estudo, que foi repetido ao longo de vários meses para garantir a confiabilidade dos resultados. Ao final, os pesquisadores constataram que os insetos condicionados reagiam de forma diferente ao repelente.
Além do comportamento, a equipe analisou a atividade cerebral dos mosquitos por meio de técnicas de imagem e eletrofisiologia. Segundo o neurocientista Clement Vinauger, experiências anteriores alteram a forma como o mosquito percebe determinados odores, o que ajuda a explicar a mudança observada.Repelente continua eficaz
Apesar da descoberta, os pesquisadores fazem um alerta importante: os resultados foram obtidos exclusivamente em laboratório. Isso não significa que o repelente tenha perdido eficácia nem que os mosquitos estejam desenvolvendo resistência ao DEET na natureza.De acordo com os cientistas, o estudo contribui para compreender melhor como o aprendizado influencia o comportamento do mosquito, mas o uso de repelentes segue sendo uma das principais formas de prevenção contra picadas e doenças como dengue, chikungunya e febre amarela.

