
As rodovias do Extremo-Oeste de Santa Catarina estão entre as rotas utilizadas para o transporte irregular de medicamentos com princípios ativos usados no tratamento da obesidade, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras. Somente entre janeiro e agosto de 2026, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu 1.174 ampolas, frascos ou seringas desse tipo de medicamento nas rodovias federais catarinenses.
Ao todo, foram 15 apreensões no período. Entre os pontos onde cargas foram interceptadas estão a BR-163, em Guaraciaba, e a BR-282, em Maravilha, além das BRs 101, 470, 280 e 480.
Segundo a PRF, parte dos medicamentos tem origem em Ciudad del Este, no Paraguai, e ingressa no Brasil antes de seguir para diferentes regiões de Santa Catarina. Entre os principais destinos aparecem Joinville, Itajaí, Balneário Camboriú e Florianópolis. Algumas cargas continuam em direção ao Rio Grande do Sul.
BR-101 concentra maior número de apreensões
Das 15 ocorrências registradas entre janeiro e agosto, nove aconteceram na BR-101, representando 60% das apreensões realizadas pela PRF no período.
Somente nessas abordagens foram encontradas 821 unidades de tirzepatida, princípio ativo utilizado em medicamentos indicados para diabetes tipo 2 e também para o tratamento da obesidade, associado a dieta e atividade física.
A maior parte das apreensões na BR-101 aconteceu em Joinville, no Norte catarinense, além de uma ocorrência em Itajaí.
Entre os produtos encontrados também estavam unidades de Lipoless, medicamento injetável à base de tirzepatida fabricado no Paraguai e que ganhou popularidade como uma espécie de “Mounjaro paraguaio”. Outras abordagens identificaram seringas de Semaglix.
Janeiro foi o mês com o maior número de ocorrências, com seis cargas apreendidas nas rodovias catarinenses.
Guaraciaba, Maravilha e Chapecó aparecem na rota
Além da BR-101, a fiscalização encontrou medicamentos transportados irregularmente em diferentes regiões de Santa Catarina.
As apreensões ocorreram na BR-470, em Ponte Alta; BR-163, em Guaraciaba; BR-280, em Canoinhas; BR-480, em Chapecó; e BR-282, em Maravilha.
De acordo com o chefe do Núcleo de Comunicação da PRF em Santa Catarina, Adriano Fiamoncini, algumas cargas seguem para o Rio Grande do Sul, enquanto outras permanecem no território catarinense e acabam destinadas à comercialização clandestina, inclusive pela internet.
Anvisa alerta para medicamentos vindos do Paraguai
Diante do aumento das apreensões, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já alertou que não é possível afirmar que medicamentos contrabandeados do Paraguai tenham a mesma eficácia e segurança dos produtos regularmente registrados no Brasil.
Testes realizados em medicamentos apreendidos identificaram a presença do princípio ativo tirzepatida. Isso, entretanto, não é suficiente para estabelecer equivalência com os medicamentos legalizados.
Para essa conclusão seriam necessárias análises específicas envolvendo, entre outros fatores, absorção pelo organismo, concentração na corrente sanguínea, eliminação do medicamento, presença de impurezas e contaminantes, degradação, esterilidade e metais pesados.
Produtos clandestinos podem representar risco à saúde
Um dos principais riscos da utilização de medicamentos adquiridos fora dos canais regulares é a impossibilidade de garantir que o conteúdo corresponda ao informado no rótulo.
O especialista em Fisiologia de Órgãos e Sistemas, com atuação em Fisiologia Endócrina e do Pâncreas, Alex Rafacho, alerta que podem existir diferenças na quantidade do princípio ativo, presença de impurezas, produtos de degradação e problemas de esterilidade.
Segundo o especialista, análises de produtos provenientes do Paraguai chegaram a identificar variações significativas na concentração de tirzepatida. Em uma das amostras, a concentração teria sido aproximadamente 60% superior à indicada no rótulo.
Outro problema está relacionado ao armazenamento e transporte. Temperaturas inadequadas, congelamento ou exposição excessiva ao calor podem comprometer o medicamento sem necessariamente provocar alterações visíveis.
Entre os possíveis efeitos estão redução ou ausência da ação esperada, náuseas, vômitos e complicações decorrentes de doses inadequadas. Falhas de esterilidade também podem provocar infecções.
A recomendação é que medicamentos como semaglutida e tirzepatida sejam utilizados com prescrição e acompanhamento médico e adquiridos em estabelecimentos regularizados, evitando produtos de procedência desconhecida, vendidos principalmente por redes sociais, grupos de mensagens ou intermediários.

