EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA - 20/11/2025 07:42 (atualizado em 20/11/2025 10:25)

Como a Lei que prevê o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira é aplicada em Maravilha

Gestores das redes estadual e municipal de ensino compartilham ações desenvolvidas
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Foto: Tamara Finardi

O dia 20 de novembro, feriado nacional dedicado a Zumbi dos Palmares e ao Dia da Consciência Negra, celebra a luta, a resistência e a representatividade do povo negro no Brasil. A data é simbólica e de grande importância, mas a legislação brasileira determina que o tema esteja presente nas escolas durante todo o ano. Há mais de duas décadas, a Lei Federal nº 10.639/2003 torna obrigatória a inclusão do estudo da História e Cultura Africana e Afro-brasileira nos currículos do ensino fundamental e médio

O professor pesquisador Mestre Feiruque de Jesus dos Santos explica que a lei é fruto de décadas de luta dos Movimentos Negros e representa um passo fundamental para construção de uma sociedade mais equitativa. Atuando na formação de educadores do Oeste e Extremo-Oeste catarinense, ele já ministrou formações em Maravilha e ressalta a importância da educação na transformação social: “a Lei nos obriga a olharmos para as contribuições do povo negro na constituição política, cultural, econômica do nosso país; mas, também, nos desafia a pensarmos ‘futuros outros’ num país marcadamente racista. Racismo só se vence combatendo-o na raiz e a saída está na educação que empodera crianças negras”, analisa.

Nossa equipe conversou com representantes das redes estadual e municipal de ensino de Maravilha para entender como a legislação vem sendo aplicada na prática.

Rede estadual

A Agente de Governança Regional da CRE Maravilha (PNEERQ/CONSED/SED), Sirnei Puntel Dal Maso, explica que as 28 unidades escolares da rede estadual, distribuídas em 14 municípios, incorporaram o conteúdo em seus Projetos Políticos-Pedagógicos (PPP), assegurando uma abordagem transversal, interdisciplinar e contínua das relações étnico-raciais.

Segundo ela, “as escolas alinham suas práticas à Portaria MEC nº 470, de 14 de maio de 2024, que institui a Política Nacional de Equidade para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). Essa política federal foi adotada pelo governo estadual e pelos municípios, fortalecendo e orientando as ações voltadas à promoção da equidade racial no ambiente escolar”, garante.

A gestora também reforça a importância do trabalho direcionado à formações para docentes, equipes gestoras e demais profissionais da educação. 

De uma forma geral, o trabalho nas escolas conta com uma série de ações, como por exemplo:
- Projetos pedagógicos que valorizam identidades e culturas diversas;
- Formação continuada para profissionais da educação;
- Protocolos de acolhimento e enfrentamento ao racismo;
- Parcerias com universidades e instituições especializadas;
- Sensibilização da comunidade escolar.

Uma atividade de integração e colaboração está sendo desenvolvida este mês em cada cada escola da Regional: a confecção de um pano representando as contribuições da cultura afro-brasileira. O material será reunido para formar uma grande colcha de retalhos, símbolo da diversidade e da africanidade. Em dezembro, um seminário apresentará as ações realizadas ao longo do ano. 

Como exemplo de uma das atividades realizadas na rede estadual de ensino, a imagem registra um momento de apresentações promovida com alunos da EEF Juscelino Kubitschek de Oliveira na última sexta-feira (14) em Maravilha, onde todas as turmas realizaram exposições temáticas, destacando também a contribuição de personalidades negras na sociedade. O dia ainda contou com o almoço temático com o prato feijoada. Foto: Divulgação/EEF Juscelino Kubitschek de Oliveira
Rede municipal

O Professor e Coordenador Geral do Ensino Fundamental em Maravilha, Geovane Kercher, informa que as escolas da rede municipal também integram o tema em seus PPPs. Segundo ele, anualmente, cada unidade desenvolve ações pedagógicas e institucionais voltadas à valorização da diversidade étnico-racial, à formação cidadã e à construção de uma educação antirracista.

“As iniciativas visam fortalecer o compromisso da rede municipal de ensino com a educação para a diversidade, a valorização das identidades e culturas afro-brasileiras, indígenas e quilombolas, bem como com a promoção da equidade racial e social no contexto escolar”, acrescenta.

Entre as atividades realizadas ao longo do ano, o gestor traz alguns exemplos:
- Contação de histórias africanas;
- Aulas dialógicas sobre questões raciais;
- Leituras com personagens indígenas e negros;
- Atividades lúdicas envolvendo crenças, músicas, danças, artes, culinária, vestuário e brincadeiras;
- Produção de obras inspiradas na cultura afro-brasileira;
- Debates sobre religião, ancestralidade, resistência e identidade;
- Estudo das raízes brasileiras;
- Mostras culturais;
- Ampliação do acervo literário com obras que subsidiem práticas pedagógicas antirracistas.

Sobre a formação profissional, ele relata que foram encaminhadas às unidades educacionais, por meio eletrônico, diversas formações e materiais de apoio ao longo do ano. Profissionais da rede também participaram recentemente da formação regional “Educação das Relações Étnico-Raciais no Oeste Catarinense: Desafios e Possibilidades”, ministrada pelo pesquisador Feiruque de Jesus dos Santos. “O encontro constituiu um importante espaço de aprendizagem, diálogo e sensibilização, fortalecendo a construção de práticas educativas comprometidas com o respeito, a igualdade e a inclusão”, avalia Geovane Kercher.

Escolas da rede municipal realizaram atividades no decorrer do ano. Neste momento, o Centro Educacional Vereador Raymundo Veit conta com um painel onde as bonecas Abayomi estão em exposição. Abayomi significa ‘Encontro precioso’, em Iorubá (Portal Geledés). Foto: Tamara Finardi/ WH Comunicações/ Líder
O que prevê a lei

A Lei 10.639/2003 determina o ensino de conteúdos relacionados à História da África e dos africanos, à luta dos negros no Brasil, à cultura negra brasileira e à participação do povo negro na formação social, econômica e política do país.

O Mestre Feiruque dos Santos ressalta a importância de o tema estar previsto no PPP das instituições de ensino: “O PPP é o documento mais importante de uma escola. Lá estão as opções pedagógicas e políticas daquela instituição. Conceber uma abordagem mais plural, que respeite as questões relacionadas à origem, crença, pertencimento étnico e racial faz total diferença”.

Desafios e perspectivas

Após mais de duas décadas de sua sanção, o pesquisador analisa avanços e desafios em relação a implementação da legislação. Ele aprofunda um olhar atento também nos currículos de formação dos profissionais de educação: “Quantas universidades em nossa região, ou mesmo em nosso estado, ofertam disciplinas sobre a temática? Quantas universidades possuem grupos de estudo sobre relações étnico-raciais? Ou ainda, alguma política de equidade racial?”

Para avançar, defende investimento em formação continuada, grupos de estudo, troca de experiências e seminários. Em suas experiências também destaca o trabalho de profissionais da educação: “Acompanho diferentes professores se envolvendo na discussão, promovendo projetos bonitos nessa linha. Cada vez mais é preciso criar espaços coletivos de reflexão – porque trabalhar consciência negra não é apenas para professores negros ou no dia da Consciência Negra, é preciso criar uma cultura antirracista em nossas escolas. O racismo se destrói é na raiz, e eu acredito que quanto mais diversificarmos nossas literaturas, opções estéticas em sala de aula, corrigirmos o nosso discurso, eliminarmos palavras e termos racistas do nosso vocabulário, e promovermos espaços qualificados de escuta, estaremos no caminho correto”, finaliza.

Feiruque de Jesus dos Santos é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Chapecó; Bacharel em Teologia (UniLaSalle, Canoas/RS) e Licenciado em Pedagogia (Unoesc, São Miguel do Oeste/SC). Pós-graduando em Gestão Escolar pela USP/Esalq. Educador e Coordenador de Pastoral (Rede Marista). Possui experiência com Formação de Professores no campo da Educação Antirracista. Pesquisador no campo da Formação de Professores e suas intersecções com as Infâncias e Relações Étnico-Raciais. 

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Fonte: Tamara Finardi/ WH Comunicações/ Líder
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