Dois em cada três atendimentos a mulheres vítimas de violência doméstica registrados no sistema de saúde brasileiro envolveram casos de agressões repetidas. O dado faz parte do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com base em informações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.
Segundo o levantamento, 186.177 mulheres receberam atendimento por violência doméstica em 2024. Deste total, 100,8 mil relataram já ter sofrido episódios anteriores de agressão, evidenciando a recorrência da violência dentro do ambiente familiar.
De acordo com o relatório, esse ciclo costuma ser mantido por estratégias de controle e isolamento impostas pelo agressor, dificultando o acesso das vítimas a familiares, amigos e serviços de apoio. Em muitos casos, as mulheres retornam repetidamente aos serviços de saúde sem conseguir romper a situação de violência, que pode evoluir para o feminicídio.
Homicídios de mulheres seguem em patamar elevado
O estudo também revela que 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2024, o equivalente a uma taxa de 3,4 homicídios para cada 100 mil mulheres. O número representa uma redução de 6,7% em relação a 2023.
Apesar da queda, os pesquisadores alertam que o cenário ainda é preocupante. Desde 2014, foram registradas 46.336 mortes de mulheres no país, embora a taxa de homicídios tenha diminuído 27,7% no período.
Mulheres negras são as principais vítimas
O Atlas da Violência destaca ainda a desigualdade racial nos casos de violência letal. Em 2024, 2.457 mulheres negras foram vítimas de homicídio, representando 67,5% de todos os assassinatos de mulheres registrados no país.
A taxa de homicídios entre mulheres negras foi de 4 mortes por 100 mil mulheres, índice 66,7% superior ao registrado entre mulheres não negras, cuja taxa foi de 2,4 por 100 mil.
Segundo o relatório, os dados reforçam que mulheres pretas e pardas continuam sendo as principais vítimas da violência letal no Brasil, evidenciando a necessidade de políticas públicas voltadas ao enfrentamento das desigualdades de gênero e raça.

