
O número de trabalhadores afastados de suas atividades profissionais por causa da ludopatia, transtorno relacionado ao vício em jogos e apostas, atingiu um recorde no Brasil em 2026. Segundo levantamento do g1, com base em dados da Previdência Social, 377 afastamentos foram registrados até agosto deste ano, superando os 312 casos contabilizados durante todo o ano de 2025.
O crescimento é de 20,83% em relação ao total do ano anterior e evidencia os impactos do transtorno do jogo na saúde dos trabalhadores e nas contas públicas.
Santa Catarina aparece na sexta posição entre os estados com maior número de afastamentos por ludopatia no período histórico analisado, com 52 registros.
Confira os estados com mais afastamentos
Segundo o levantamento, os seis estados com maior número de benefícios concedidos por incapacidade temporária relacionada ao transtorno do jogo, entre 2018 e agosto de 2026, são:
São Paulo: 297 casos
Minas Gerais: 110 casos
Rio Grande do Sul: 76 casos
Rio de Janeiro: 68 casos
Paraná: 58 casos
Santa Catarina: 52 casos
No Brasil, foram contabilizados 914 afastamentos no período analisado.
Homens representam a maioria dos casos
Os dados mostram que os homens correspondem à maior parte dos trabalhadores afastados em decorrência da ludopatia.
Dos 914 registros, 654 envolvem homens e 260 mulheres.
O tempo médio de afastamento também apresenta diferenças. Entre os homens, a duração média é de 64 dias, enquanto entre as mulheres chega a 60 dias.
O valor médio dos benefícios previdenciários é de R$ 2.727 para homens e R$ 2.143 para mulheres.
Os registros consideram benefícios por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença, concedidos a trabalhadores diagnosticados com o código F63.0 da Classificação Internacional de Doenças (CID), correspondente ao jogo patológico.
Para receber o benefício, o segurado precisa passar por avaliação médica e cumprir os requisitos previdenciários.
Gastos com benefícios chegam a R$ 4,8 milhões
O aumento dos afastamentos também provocou crescimento das despesas da Previdência Social.
Conforme o levantamento, os benefícios concedidos por ludopatia somaram aproximadamente R$ 1,9 milhão até agosto de 2026.
Desde junho de 2023, os gastos acumulados chegaram a pelo menos R$ 4,8 milhões.
Os dados também apontam que o custo mensal dos benefícios em junho de 2026 foi seis vezes maior do que o registrado no mesmo mês de 2023.
Como o vício em apostas afeta a saúde mental
Reconhecido pela psiquiatria como um transtorno desde 1980, o jogo patológico é uma dependência comportamental que pode comprometer a saúde mental, as relações familiares e a situação financeira dos pacientes.
Segundo o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo, especialista em ludopatia, o transtorno atua em circuitos cerebrais relacionados à recompensa, de maneira semelhante ao que ocorre em dependências de álcool e outras drogas.
O especialista destaca que as consequências podem continuar mesmo após a interrupção das apostas, principalmente quando o paciente acumula dívidas e enfrenta problemas familiares ou profissionais.
Por isso, o tratamento pode exigir acompanhamento psicológico, psiquiátrico e apoio para reorganização da vida financeira.
Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), citado no levantamento, estima que os custos relacionados às apostas para a saúde no Brasil possam alcançar pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano.
Governo federal suspendeu as bets
O cenário também ganhou um novo capítulo com a publicação de uma medida provisória do governo federal, em 25 de outubro, que proibiu as apostas de quota fixa, conhecidas como bets, além de jogos de cassino online.
A medida tem validade inicial de até 120 dias e depende de aprovação do Congresso Nacional para se tornar permanente.
Especialistas alertam, entretanto, que a proibição não elimina automaticamente o problema da dependência.
O promotor de Justiça Paulo Roberto Binicheski, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, avalia que existe o risco de migração dos apostadores para plataformas ilegais, caso não haja fiscalização efetiva.
Já o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo defende que o enfrentamento da ludopatia precisa combinar restrições à oferta de apostas, combate ao mercado clandestino e ampliação dos serviços de saúde mental.
Onde procurar ajuda
Pessoas que apresentam dificuldades para controlar o impulso de apostar podem procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O acompanhamento pode ser iniciado na rede pública de saúde, com encaminhamento para atendimento psicológico, psiquiátrico ou serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), conforme a necessidade.
Entre os sinais de alerta estão a perda de controle sobre as apostas, tentativas repetidas de recuperar dinheiro perdido, endividamento, ocultação do comportamento de familiares e prejuízos no trabalho ou nas relações pessoais.
A orientação dos especialistas é buscar ajuda assim que esses sinais forem identificados, evitando o agravamento das consequências financeiras e emocionais.

